S. Paulo – O ato para lembrar os 80 anos da Frente Negra Brasileira – o único partido político formado por negros da história do Brasil – expôs o quanto o movimento negro brasileiro atual se distanciou de uma agenda política e dos princípios da Frente.
Realizado na noite desta quinta-feira (15/09) na Casa de Portugal, no bairro da Liberdade – o mesmo local em que a Frente foi fundada em 1.931 – os oradores, todos políticos negros, integrantes do governo Alckmin e a própria secretária de Justiça, Eloisa Arruda, se limitaram a saudações memorialísticas.
Nem mesmo o cantor, apresentador e vereador paulistano Netinho de Paula (foto), do PC do B, que nas eleições do ano passado para o Senado obteve mais de 7 milhões de votos, fez qualquer menção ao fato de que os negros estão fora do projeto de reforma política, que será votado ainda este mês por deputados e senadores.
Negros de fora
No projeto relatado pelo deputado Henrique Fontana (PT/RS) e defendido pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, que promete fazer campanha por sua aprovação, a presença das mulheres foi garantida. Para cada três candidatos nas chapas dos Partidos às eleições, uma deve ser reservada às mulheres.
No caso dos negros e indígenas, apesar do PT em seu último Congresso ter aprovado cotas na proporção de 20% das chapas de candidatos, o projeto da reforma política silencia sobre qualquer participação.
Diante de uma platéia híbrida composta por parentes sobreviventes de fundadores da Frente, como Mário Ribeiro da Costa, filho do ex-presidente Justiniano Costa, assessores e ocupantes de cargos na Prefeitura e no Estado, Netinho pregou a necessidade de se por fim ao que ele diagnosticou como fonte de conflitos na Frente Negra, dividida entre adeptos do retorno do antigo regime – a Monarquia – e tendências socialistas como a defendida por um dos seus fundadores, José Correia Leite. “Será que não continuamos hoje divididos por partidos?” perguntou.
Gafe
A celebração, organizada pelo advogado Antonio Carlos Arruda, chefe da Coordenação de Políticas para as Populações Negra e Indígena da Secretaria de Justiça, teve tom oficial com a presença da própria secretária Eloisa Arruda, sentada no centro da mesa, ao lado da ex-deputada Teodosina Ribeiro.
A secretária foi a última a falar, após discurso do chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Admir Gervásio Moreira – o único negro que integra o primeiro escalão do Governo do Estado.
Moreira, que mesmo sendo negro tem posições em relação a luta contra o racismo e por igualdade semelhantes as de Pelé, para quem “não existe racismo no Brasil”, protagonizou a gafe da noite ao “desejar mais 80 anos a Frente Negra”.
A Frente está extinta desde 1.937, quando Getúlio Vargas, extinguiu todos os Partidos políticos no golpe do Estado Novo.
Social
Depois da parte abertura, o ato animado pela Orquestra Sinfônica Afro-brasileira, do maestro José Polia, contou com as exposições acadêmicas sobre aspectos da Frente, a cargo do jornalista e escritor Oswaldo Faustino, de Vera Benedito, da Editora Selo Negro, e de Márcio Barbosa, autor do livro “Frente Negra Brasileira – Depoimentos”.
Veja no vídeo depoimento de José Correia Leite, um dos fundadores da Frente Negra, editado por Ras Adauto e pelo cineasta Zózimo Bulbul, produzido em 1.985, na sede campestre do Aristocrata Clube, em S. Paulo. O vídeo, com os depoimentos conduzidos por Amauri Pereira e Yedo Ferreira, reuniu militantes do movimento negro dos anos 30 – como Correia Leite e Aristides Barbosa – dos anos 70, e expõe a distância entre as visões e posições.

Da Redacao