S. Paulo – A exigência de honorários milionários para os advogados, no caso do assassinato do soldador Beto Freitas, foi precedida de negociação em que os profissionais deveriam concordar em repassar o dinheiro para um auto proclamado Escritório de Advocacia Negra a ser criado pela Educafro.

A confissão é do próprio autor da proposta, e articulador do acordo com o Carrefour, o frei David Raimundo dos Santos, diretor executivo da Educafro.

“Lá atrás, quando nós chamamos esses advogados negros e brancos para nos ajudarem nessa demanda, nós conversamos com eles e dissemos o seguinte: “a gente queria, como comunidade negra, e como Educafro, não queria mais ficar dependendo de advogado voluntário e de escritórios voluntários. Queremos continuar tendo eles como nossos parceiros, mas queremos ter um escritório de advocacia afro imediatamente, com o dinheiro dos proventos de vocês. Com o que vocês vão ganhar a gente quer que vocês se comprometam em ceder para a Educafro criar um escritório de advocacia afro para ajudar o povo negro nos quatro cantos do Brasil”, confessa o frei em áudios a que a Afropress teve acesso.

“E os nossos queridos advogados negros e brancos aceitaram. Portanto, esse dinheiro não vai para para os advogados. Esse dinheiro vai para  ajudar a criar o escritório de advocacia afro”, conclui.

Pelo acordo, formalizado por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), homologado pela Justiça, o Carrefour pagará R$ 115 milhões para se ver livre de processos, presentes e futuros,  pelo assassinato de Beto Freitas, espancado até a morte por seguranças numa loja de Porto Alegre.

Desse total, R$ 3,4 milhões (o equivalente a 3%) correspondem aos honorários – cerca de três vezes mais do que a indenização paga pela rede francesa a viúva Milena Freitas.

  • Confira os áudios em que Frei David revela bastidores da negociação com o Carrefour, rejeitada e denunciada por centenas de entidades negras, inclusive pela Coalizão Negra por Direitos, da qual a própria Educafro faz parte.