Brasília – Mesmo sem espaço na agenda de campanha para temas como o racismo e a desigualdade racial, numa eventual vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff, – se acontecer conforme indicam as pesquisas – será determinante os cerca de 22 milhões de votos obtidos por candidatos negros às Assembléias Legislativas, Câmara Federal e Senado, no primeiro turno.
Os números são de um Levantamento do Instituto de Política, Gestão Pública e Empresarial e Tecnologias Apropriadas (IPOGETEC), de Brasília, e levam em conta todos os votos obtidos por candidatos negros, eleitos e não eleitos em todos os Estados. O Levantamento, que tem como fonte os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi coordenado pelo economista e cientista político Carlos Trindade (foto).
Segundo Trindade, os 22 milhões equivalem a 19,86% do total de votos computados e 21,74% do total de votos válidos no 1º turno. A candidata do PT obteve 47 milhões de votos.
Em toda a campanha, tanto Dilma quanto o seu adversário – o tucano José Serra – praticamente ignoraram o tema da igualdade racial, tanto nos debates quanto no horário eleitoral gratuito, o que segundo lideranças negras, reflete a persistência da invisibilidade na agenda pública do país, sobre um tema que atinge diretamente 51,3% da população brasileira, que é negra.
Partidos
No levantamento, Trindade também constatou a predominância de candidatos negros nos chamados partidos de esquerda (PT, PC do B, PSB e PSOL) e prevê que a vantagem de Dilma no segundo turno é fortemente influenciada pela tendência do voto desse segmento, o que não vem sendo detectado pelos institutos de pesquisa. “Esta realidade garantirá a destinação destes votos, mais uma vez, na candidata do PT, visto todos os partidos, à exceção do PSOL, e em parte o PTB, comporem a sua coligação”, afirmou.
Segundo ele, esse é um dado novo no processo eleitoral no Brasil. “Nas eleições de 1990, por exemplo, na 49ª Legislatura do Congresso Nacional, dos 17 parlamentares negros (as) eleitos, 6 eram do PT, 1 do PC DO B, 5 do PPB/PFL/PP/PTB, 1 do PSDB, 1 do PMDB, 1 do PDT e 1 do PSB. Hoje, que se saiba, o único candidato negro demista [do Democratas] no Brasil foi o ex-governador João Alves Filho que concorreu mais uma vez ao Governo do Estado e obteve 466.219 votos”, acrescentou.
Romper a invisibilidade
O cientista político destacou a importância dos Institutos de Pesquisa passarem a coletar e publicar as intenções de voto da população negra, e também do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), passar a incluir o quesito cor entre as variáveis do perfil étnico-racial dos candidatos, ao invés de limitar-se às variáveis sexo, idade, partido e naturalidade.
No estudo, Trindade chegou a outras duas constatações que considera importantes: a primeira é a concentração do voto negro em Dilma, em S. Paulo -, especialmente, levando-se em conta os mais de 7, 5 milhões de votos obtidos pelo vereador e apresentador Netinho de Paula, derrotado para o Senado – no Rio e na Bahia. “Este fator deve ser considerado tanto pelo governo quanto pela oposição na montagem de suas estratégias de campanha para este segundo turno. No sudeste, em especial, é onde os tucanos tentaram ampliar seus votos contra a candidata do governo”, acrescenta.
A segunda constatação é quanto ao número limitado de parlamentares afro-brasileiros, considerando uma população que representa 51,3% da população brasileira, e as dificuldades que a população negra brasileira ainda enfrenta para eleger os seus representantes.
Trindade destaca que, na sua grande maioria, os candidatos mais votados ou dispuseram de razoável estrutura de campanha e apoio de base local ou tinham mandato anterior ou ocuparam algum cargo/atividade que lhes forneceu visibilidade pública ou tem presença efetiva na direção partidária.
“Eles são exceção à regra da maioria das lideranças negras brasileiras que desenvolvem ação comunitária, fazem trabalho cultural ou chegam ao posto máximo de cabo eleitoral a cada dois anos, mas não experimentam nenhum tipo de mobilidade nos espaços de poder por estarem inseridos em um sistema político que funciona sob a égide do poder econômico”, afirma.
Segundo o cientista político – que é militante do PT e integrou a equipe da ex-ministra Matilde Ribeiro, na SEPPIR -, a única conclusão possível é a de que, no Brasil, fora destas alternativas “é muito difícil, para um negro ou negra, chegar ao topo do legislativo brasileiro”.
“Resta-nos torcer para que os parlamentares eleitos e outros aliados comprometidos com a construção de uma sociedade pluralista aprovem uma Reforma Política capaz de ampliar e estimular a participação de grupos discriminados por sua condição étnico-racial e de gênero em todas as instancias de decisão sobre o presente e o futuro do Brasil”, concluiu.

Da Redacao