S. Paulo – A agência do Banco do Brasil da Rua Rego Freitas, no centro de S. Paulo, está se negando a entregar à Polícia, as imagens do circuito interno em que o poeta, cantor, compositor e rapper da Cooperifa, Luciano Dimis da Silva, o James Banthu, é barrado na porta giratória, e em seguida é humilhado e ameaçado de prisão por um policial militar numa revista.
Banthu foi a agência apenas para sacar um cheque de R$ 504,00, o seu pagamento como Arte-Educador, na Ação Educativa, a ONG em que trabalha.
Em resposta ao ofício da delegada Daniela Branco, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância da Polícia de S. Paulo, que preside o Inquérito, a gerente do banco, Juliana Danez Domingues, condicionou a entrega das imagens a uma ordem judicial.
“A solicitação feita por delegado de Polícia Civil somente é atendida quando se trata de crime contra o Banco, mesmo assim a avaliação deve ocorrer em ambiente do banco. Quanto se trata de suposto crime contra cliente, só com mandado judicial”, informou, sob a justificativa de que a cessão de imagens (gravadas ou impressas) “envolve risco de quebra de sigilo bancário”.
Peça fundamental
A análise das imagens é peça fundamental na investigação, segundo a Polícia, porque a mesma gerente, acompanhada da funcionária da segurança que impediu a entrada de Banthu, registraram Boletim de Ocorrência (778/2011), pelo fato de, no dia seguinte, o poeta ter retornado à agência para tentar resgatar o seu cheque, só que, desta vez, acompanhado de cerca de 50 pessoas solidárias com ele, pela violência sofrida no dia anterior. Acusam o poeta de ter provocado escândalo e tumultuado o funcionamento da agência.
O Banco do Brasil, em 2010, teve o maior lucro da história dos bancos no país – R$ 11,703 bilhões – segundo a Consultoria Economática – uma alta de 15% sobre os 10,148 bilhões, em 2009.
A vigilante, já identificada pela Polícia, como Maria Vanésia Feliz dos Santos, no depoimento que prestou criou uma versão que Banthu classifica como “fictícia”. Ela disse que a vítima foi o culpado pois “teria dito que iria se sentar na porta giratória e que iria ganhar muito dinheiro processando o Banco do Brasil”.
Obra de ficção
Segundo o artista, os depoimentos, tanto da funcionária, responsável pelo travamento da porta giratória, quanto da testemunha que arrolou, a auxiliar de serviços gerais, Ivone Alves “são uma obra de ficção, de péssima qualidade”.
No depoimento que prestou na última quarta-feira (23/03), acompanhado pelo advogado Dojival Vieira, Banthu reiterou ter sido vítima de discriminação racial “pois não deu causa ao tratamento dispensado pela segurança da agência” e que os depoimentos que o acusam de ter ameaçado sentar no chão e causado tumulto são “falsos e mentirosos”.
“Em nenhum momento me comportei de forma agressiva, ofensiva, ou desrespeitosa em relação aos policiais e aos funcionários do banco”, afirmou.
O policial que determinou que Banthu levantasse as mãos e encostasse na parede, com o dedo em sua cara, sob gritos de “coloca a mão para trás”, “cala a boca!”, “Se eu quiser, se eu mandar, eu posso até te deixar pelado aqui”, “se você não calar a boca, eu vou te algemar aqui!”, também já foi identificado pela Polícia e deverá ser ouvido nos próximos dias. Trata-se do soldado Alexandre José de Morais, do 7º Batalhão da Praça Roosevelt.
Ele estava acompanhado de outro militar, que na abordagem, porém teve atitude discreta, e que teria ficado inicialmente com a RG do poeta para levantar se tinha passagens pela Polícia. A atitude dos policiais, após a porta ser travada, deixa claro que Banthu, não teve a sua entrada liberada porque era visto como suspeito.
No depoimento Banthu disse que, não ter podido descontar o cheque teve prejuízos, não podendo cumprir compromissos agendados como o pagamento de contas, por exemplo.
Agora, a delegada quer ouvir os dois policiais militares envolvidos e mais a testemunha Marcela Prest, que viu toda a cena de constrangimentos e violência, além de analisar as imagens do circuito interno da agência, que espera conseguir por meio de ordem judicial, diante da negativa da gerência.
Repercussão
O caso aconteceu no dia 09 do mês passado, por volta das 14h40 e provocou a revolta de artistas da área cultura, em especial na Cooperifa, movimento cultural de incentivo à leitura e à criação poética que há 10 anos se reúne no Bar Zé Batidão, na periferia de S. Paulo, onde Banthu, habitualmente se apresenta e faz performances.
O criador da Cooperativa, o poeta Sérgio Vaz, lançou manifesto denunciando o ato de discriminação praticado pelo Banco do Brasil e pelo Estado, através dos policiais, que até a semana passada já contava com mais de 400 assinaturas, entre jornalistas, poetas, cantores, músicos e rappers.
Segundo o advogado, além do constrangimento ilegal, das ameaças, do abuso de poder e da violência sofrida, Banthu foi vítima do crime de racismo previsto no artigo 5º da Lei 7.716. A Lei considera crime “recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador”. As penas, além das previstas para os outros crimes, só neste caso, variam de um a três anos de reclusão.

Da Redacao