Os ataques da bandidagem no Rio de Janeiro – com ramificações em outros estados da federação -, que resultaram em 19 mortos, muitos feridos e mais de uma dezena de ônibus incendiados, foram o estopim de uma situação que atingiu o seu limite máximo permitido, e, exige de todos os brasileiros, a mais energética repulsa, como uma forma veemente de nos negarmos a aceitar este estado de coisas.
As autoridades prometem medidas endurecidas para conter tais barbaridades. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de Brasília, protestou indignado, prometendo o uso de forças federais para cortar o mal pela raiz no que ele denominou de “atos terroristas”. Já o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, manifestou a intenção de solicitar ajuda federal, se possível, para conter a tusiname da violência.
São esses e outros fatores que agravam o clima de tensão e medo entre a população. Acima de tudo isso, a certeza da impunidade, razão maior para a prática desses crimes, aliado à contaminação do tecido institucional, ligado em geral ao governo e a fortes corporações militares. O exército de bandidos está fortemente robustecido pela corrupção, que grassa pelas bandas podres, bastante oligárquicas, pelas suas raízes históricas na cultura do poder estatal.
O caso do jornaleiro
Uma discussão lamentável levou à morte o comerciante Jonas de Souza, de 28 anos, nos últimos dias do mês de dezembro, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Jonas de Souza tinha uma conta corrente na agência do banco Itaú, entre as ruas Nilo Peçanha e Rio Branco. Jonas era um homem honrado, trabalhador, e há dez anos freqüentava a mesma agência bancária, para verificar, como todo e qualquer cliente faz jus, extratos, fazer depósitos ou operar o seu saldo bancário. Fatalidade das fatalidades!
Tudo isto poderia ser caracterizado como uma operação corriqueira, feita por qualquer cidadão, cumpridor das leis e pagador de impostos. Mas não. Jonas de Souza era negro, e sua cor fez a diferença na hora da abordagem sofrida por um aguarda branco, que, usando do seu poder discricionário, o interpelou à entrada da agência, e sem qualquer resistência de sua parte (conforme atestaram as testemunhas), o alvejou à queima roupa, levando-o à morte, sem que o mesmo tentasse qualquer tipo de defesa. O fato de ser negro, sem sombra de dúvida, foi o ato determinante para a criteriosa abordagem e morte do rapaz. O pseudo-policial, como se julga os guardas de aluguel dos bancos de correntistas no Brasil, não teve dúvidas ao atirar naquele cidadão, sem levar em conta o seu histórico de cliente preferencial, de que era conhecedor, nem dos seus laços familiares, denotado pela sua postura cordata e educada.
A morte de Jonas de Souza, se não for caracterizada como ato de racismo, tem tudo para ser relegada ao esquecimento, se, acaso, tiver a sorte de chegar aos tribunais. O seu matador confesso, o segurança-polícia Natalício Marins, saiu como entrou pela delegacia: sem maiores problemas. O delegado que o “atendeu” fez juízo do Código de Processo Penal, ao defender que a pessoa que se apresenta e entrega a arma, tem uma atenuante: o crime configurado não entra na ordem de “flagrante delito”. Solto no mesmo dia do crime, o criminoso saiu da delegacia andando, de cabeça erguida, como se estivesse cumprido o seu dever: o de ter matado um homem honrado e o de confessar que matou.
A família indignada promete protestar por justiça. Mas eis que a velha e corrompida impunidade ronda os alicerces da família Souza, da mesma forma que garante o sucesso dos atos de bandalismo perpetrado de dentro dos próprios presididos cariocas à luz do dia e à mercê das autoridades constituídas.
Não sabemos onde isto vai parar. Rezar só não adianta mais, pois de presença espiritual já nos basta os braços abertos do Cristo; é preciso coragem para enfrentar o problema. E isto não é só um dever do Estado brasileiro. Passa por toda a sociedade carioca e fluminense.

Uelinton Farias Alves