Que reflexo essa realidade terá para o resto da humanidade? E no Brasil, maior país negro fora da África, com uma população de quase 50% de afro-descendentes como Obama, em que isso nos influenciaria? E o que temos a ver com isso?
Mais que imaginamos.
A luta secular que o negro tem travado em nosso País por igualdade de oportunidades, justiça social e contra o racismo, tem encontrado vários obstáculos ao longo do tempo e, sem dúvida, um dos principais sempre foi a comparação depreciativa que se faz entre as relações raciais norte-americanas e a pseudodemocracia racial brasileira. Alguns a repetem por desinformação, outros por má-fé, no entanto, a frase foi sempre a mesma:
“No Brasil não existe racismo. Vocês estão querendo transformar isso aqui nos Estados Unidos, onde se penduram negros em árvores”.
O movimento negro no século XX passou décadas ouvindo essa ladainha e, no início dos anos 1990, quando começamos a luta por ações afirmativas e cotas nas universidades – na tentativa de mudar a vergonhosa posição dos afro-brasileiros, que ocupam menos de 3% dos bancos universitários -, novamente fomos apunhalados pela frase: “Cotas para negros? Vocês estão querendo transformar isso aqui nos Estados Unidos!”, como se o Brasil já não tivesse aplicado cotas para mulheres na política, cotas para filhos de fazendeiros estudarem durante a ditadura da década de 1960, e até mesmo cotas no governo Vargas, bem antes dos norte-americanos.
Hoje, analisando a situação política dos Estados Unidos e invocando as célebres frases, tão propagadas em terras brasileiras principalmente nos momentos de maior embate na questão racial, seria interessante fazer realmente a tal comparação e perguntar para essa gente: quando é que vamos copiar o modelo norte-americano e ter um candidato negro com reais chances de chegar à Presidência da República?
Como a pergunta é difícil, tentaremos ajudar na resposta. Se analisarmos o cenário das próximas eleições presidenciais no Brasil, previstas para 2010, veremos que dos cinco principais candidatos à vaga – José Serra, Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e Dilma Rousseff – nenhum é afro-descendente.
Mesmo se formos mais humildes e pensarmos na vice-presidência, também não aparece no cenário nenhum negro com chances de ser eleito, nem mesmo em 2014. Porém, podemos ser ainda mais humildes e pensar no governo de um grande Estado, afinal, os norte-americanos têm, por exemplo, como governador de Massachussets, um negro.
E nós? Além de não termos nenhuma probabilidade de que isso aconteça, analisando a conjuntura, as costuras e conchavos da política brasileira, sabemos que também nas próximas eleições não haverá nenhum candidato negro ao governo de um grande Estado.
Mas iremos ao extremo da humildade e olharemos para as capitais, afinal, este é um ano de eleições municipais. Bem, aí vem uma goleada dos norte-americanos, que têm sua capital, Washington DC, governada por um negro; Atlanta, capital da Geórgia, governada por Shirley Franklin, uma mulher negra; e outra mulher negra à frente da maior cidade do Estado de Maryland, Sheila Dixon, prefeita de Baltimore, e também negros no comando de outras cidades estratégicas, como Philadelphia, Detroit, Cleveland, Memphis, Columbus e dezenas de outros.
E quanto a nós???
A situação é tão vexaminosa que somente agora, após 459 anos de sua fundação, Salvador, a capital baiana, que tem 82% de sua população formados por afro-descendentes, terá uma mulher negra como candidata a Prefeitura. E em termos de capitais brasileiras, é só.
Se sairmos da área política e nos direcionarmos para as áreas econômica e social, as diferenças ficam ainda mais gritantes e desanimadoras. Por exemplo: o Produto Interno Bruto (PIB) do negro norte-americano é maior que o PIB brasileiro, a 11ª. economia do planeta, e mais: pesquisa recente demonstrou que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro tem crescido nos últimos anos, porém na lista dos 177 países pesquisados existem mais de 60 países à nossa frente.
Se separarmos o Brasil branco do Brasil negro, veremos que o primeiro salta para a 44ª. posição em desenvolvimento humano, enquanto o Brasil negro cai para 104ª. posição, ficando abaixo de vários países subdesenvolvidos da África.
Embora seja contrário à importação de qualquer tipo de modelo, em especial o norte-americano, quando olho para esses dados e para o desempenho de Barack Obama começo a desconfiar que a turma das tão famigeradas frases tinha razão, e que tudo que queríamos mesmo era copiar o tal modelo ianque…

Maurício Pestana