Washington/EUA – O ministro Joaquim Barbosa, o único negro no Supremo Tribunal Federal (STF), disse que a vitória do senador Barack Obama para a Presidência dos EUA, “tem caráter revolucionário e transformador”.
“Estou emocionadíssimo. É uma grande lição para o mundo inteiro”, disse o ministro, em entrevista a jornalista Mônica Bergamo, publicada nesta quinta-feira (06/11) ao Jornal Folha de S. Paulo.
O ministro disse acreditar que um dia um negro ainda chegará à Presidência da República no Brasil e não afastou a hipótese de ser ele próprio o candidato. “Para isso, eu tenho que acabar a minha missão no Supremo”, disse. Aos 54 anos, ele pode ficar mais 17 no STF.
Veja, a entrevista, na íntegra.
FOLHA – Como o senhor recebeu o resultado?
JOAQUIM BARBOSA – Estou emocionadíssimo.
FOLHA – Eu imagino.
BARBOSA – Pelo momento, pelo caráter revolucionário e transformador desse fato ocorrido ontem. É uma grande lição para o mundo inteiro. Ver o [reverendo] Jesse Jackson em lágrimas foi um impacto muito grande. Eu ainda estou aqui à frente da televisão, acompanhando, vendo entrevistas maravilhosas.
FOLHA – O senhor nos disse, antes do resultado, que chegou a temer que o racismo atrapalhasse Obama.
BARBOSA – Eu temia, eu temia que isso realmente tivesse um peso na eleição. Mas, felizmente, não teve. Aqui nos EUA houve inúmeros programas governamentais voltados para melhorias da condição do negro, para a melhoria das relações raciais. O “civil right act”, de 1964 [conjunto de leis de direito civil que previam a inclusão das minorias], por exemplo. A gente tem que lembrar que os negros eram completamente excluídos do processo político nesse país. Até bem recentemente.
Negros não freqüentavam os mesmos lugares, eram proibidos de freqüentar transportes públicos, bares, restaurantes, escolas. Isso, veja bem, há 40 anos. E, num período tão curto, temos essa transformação extraordinária que culmina com a presença de um negro na Casa Branca. É simplesmente inimaginável e extraordinário. Parabéns aos Estados Unidos.
FOLHA – No Brasil, a sua nomeação para o STF (Supremo Tribunal Federal) foi simbólica também, não?
BARBOSA – Cabe a vocês avaliarem. Mas para o Brasil foi um fato extraordinário, sem dúvida. Pela primeira vez, um negro foi colocado numa posição de poder real e por um longo tempo. Eu já estou há quase seis anos nessa posição.
FOLHA – O senhor acha que um dia verá um negro ocupar a Presidência da República no Brasil?
BARBOSA – Vai ocorrer, vai ocorrer. Nós estamos um pouco atrasados em razão da pouca inserção do negro brasileiro num sistema educacional conseqüente. Mas isso um dia vai ocorrer, com muita naturalidade, no Brasil.
FOLHA – O senhor poderia ser candidato a presidente?
BARBOSA – Para isso eu tenho que acabar a minha missão no Supremo [aos 54 anos, ele ainda pode ficar mais 17 no STF].
FOLHA – Então o senhor não descarta a possibilidade?
BARBOSA – Eu não… pode botar aí, viu? Eu não tenho o “physique du rôle” para a política. A minha família, os meus amigos, todos sabem que não tenho o menor jeito para a coisa.
FOLHA – O senhor é a favor do sistema de cotas?
BARBOSA – Eu não posso falar sobre isso porque isso está sub judice [a questão das cotas para negros em universidades será julgada pelo STF]. Então estou falando com você com muito cuidado, sobre generalidades, para não tocar diretamente nesse problema. Mas o Brasil, nos últimos dez anos, começou a mover-se nessa questão da inserção do negro, de mudanças nas relações sociorraciais no país. Então, nós precisamos de líderes com muita visão, muita acuidade, muita sensibilidade para saber conduzir esse processo e evitar retrocessos.

Da Redacao