Falar neste espaço sobre políticas de ações afirmativas Bíblicas para políticas de ações afirmativas é como chover num molhado que já secou e molhou de novo. Por isto não vou me ater nas explicações e fundamentações das políticas afirmativas para negras e negros neste país, mas tentarei, com um certo temor, explicitar algumas bases bíblicas para as políticas de ações afirmativas. Sei que o público que acompanha as informações da AFROPRESS é diverso e não tentarei tecer comentários conclusivos, mas sim, explicativos.
Usaremos este espaço com muito respeito a todas e todos na esperança de esclarecer (ou enegrecer) algumas inquietações que tomaram contas de muitos negros e negras sobre a participação de negros evangélicos no Movimento Negro. Mas, o faremos dando uma visão teológica de textos que, infelizmente, por muitas vezes e por muitas igrejas foram usados como forma de manutenção de racismo entre os evangélicos e que ainda hoje tem, sob muitas mentes, uma força diabólica, fazendo com que muitos cristãos venham a achar que o povo negro está sob maldições.
Esperamos também contribuir para que negros e negras tenham maior visão sob o nascimento do evangelho no mundo, pois o cristianismo, pode-se dizer, também tem origem em matrizes africanas. Servimos a um Cristo negro que se encarnou entre nós, a humanidade, não como um branco da elite judaica, mas como um negro pobre da manjedoura.
A Bíblia, a partir do primeiro testamento (VT), é um livro de histórias do povo negro no mundo. É claro que a partir do segundo testamento (NT), quando o cristianismo passa as cercas da palestina e vai até a Europa, atinge a todos os povos.
Utilizaremos a Bíblia e para ela voltaremos sempre. Por quê? Porque a Bíblia é a nossa regra de fé e prática. É uma espécie de manual de orientação para a vida, mas também, se usada com seriedade, é instrumento que nos faz refletir às ações e lutas pela justiça, que nos faz confrontar os opressores. É na Bíblia que conhecemos um Deus que age na história e se move fazendo opção pelos pobres, pelos oprimidos e excluídos.
Através deste espaço vamos propor uma hermenêutica mais próxima da nossa realidade brasileira e negra. Uma hermenêutica que dignifique os negros e negras colocando-os no lugar de destaque que o Senhor do Universo os colocou. E também uma hermenêutica que nos faça perceber que nós os negros estamos muito mais próximos uns dos outros do que distantes, não obstante nossa opção religiosa.
Mas, também, uma Hermenêutica que não nos faça opressores com a idéia de que os brancos não são feitos à imagem de Deus e que não devem ser incluídos no processo de transformação e de igualdade racial no Brasil. Pois, sei que o problema da exclusão racial em nossa nação é de todos e, resolvendo esta questão, estaremos eliminando a maioria dos problemas sociais existentes no país. Portanto, a nossa proposta é de uma interpretação inclusiva que vise a dignidade dos negros e negras.
As bases bíblicas para políticas de ações afirmativas serão importantes também para evangélicos que, se não o fazem, farão em breve, lerão estes artigos. Jesus disse uma vez que erramos porque não conhecemos. E muitos evangélicos erram na sua postura contra ações afirmativas, sendo intolerantes em relação às religiões chamadas de matrizes africanas, na não aceitação do Estatuto para igualdade racial, no procedimento dogmático contra as cotas etc., porque têm falta de conhecimento de que a própria bíblia lida, diariamente, por muitos, e o próprio Deus adorado por todos os cristãos, defendem essas políticas como forma de manifestação da justiça, como manutenção da criação e como expressão da vontade perfeita de um Deus perfeito.
Espero que possamos contribuir de alguma forma para uma reflexão aos negros e negras que são e serão leitores da afropress.
Que o Senhor de todas as raças, povos e nações seja exaltado. E Que a justiça corra como um ribeiro eterno neste Brasil e que os negros e negras vejam melhores dias.

Pr. Marco Davi De Oliveira