As encenações estão ocorrendo em vários Estados do país, não como reprodução artística – o que já seria grave e inconcebível – mas a pretexto da exploração do turismo étnico, vale dizer de comércio.
O grau de realismo chega a ponto de guias de se amarrarem aos troncos para se oferecerem ao açoite, a fim de saciar a diversão de ávidos turistas.
Além de Pernambuco – Estado cujo Governo vem promovendo espetáculos como parte de medidas de incentivo ao turismo rural – também o Rio de Janeiro e S. Paulo passaram a promover tais encenações. No Rio, o Hotel Fazenda São João da Prosperidade, em Barra do Piraí, já foi alvo de representação movida em boa hora pela Ouvidoria da Seppir.
Em S. Paulo, recentemente a Secretaria de Turismo do Estado, anunciou sem grande alarde, “A rota do Escravo”, roteiro turístico que se propõe a ser “um elo entre passado e presente escravista no Brasil”.
Diante do desrespeito aos sofrimentos e a violência à memória de nossos antepassados; diante da agressão aos milhões de negros e negras brasileiros, não é possível tergiversar.
O escravismo reconhecido pela III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, como crime contra hediondo, tragédia terrível na história da humanidade, “não apenas por sua barbárie abominável, mas também em termos de sua magnitude, natureza de organização e, especialmente, pela negação da essência das vítimas”, não é para ser lembrado para diversão de turistas mal-informados – e ou, quem sabe, racistas sádicos.
É, antes e será sempre, sinônimo de opróbio e vergonha, holocausto que devemos lembrar como algo que jamais permitiremos que se repita na história da humanidade.
A ONG ABC Sem Racismo protocolará representação ao Ministério Público Estadual e Ministério Público Federal, pedindo a essas autoridades providências visando:
1 – A IMEDIATA INTERRUPÇÃO DE TAIS ESPETÁCULOS NOS ROTEIROS TURÍSTICOS SOB O PRETEXTO DO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO ÉTNICO;
2 – A RESPONSABILIZAÇÃO CRIMINAL E CIVIL DOS SEUS EXECUTORES – SEJAM PARTICULARES, OU AGENTES PÚBLICOS.
Nós da Afropress, acreditamos que é chegada a hora de se exigir das autoridades medidas para que se dê um paradeiro a estes espetáculos degradantes que ofendem a milhões de brasileiros negras e negros, que já sofrem agressões de sobra no seu cotidiano, alvos de um processo secular de exclusão a que todos estamos submetidos e que se revela com toda nitidez nos indicadores sócio-econômicos.
RESPEITEM NOSSO POVO. NÃO CONTINUEM A VILIPENDIAR NOSSA MEMÓRIA!