Os nossos irmãos afro-americanos entenderam que histórias ou “estórias” sobre a escravidão só causavam humilhação e dor, além de prejudicar o processo de reconstrução da auto-estima dos jovens negros. Repito, a única exceção aceita são as estórias edificantes com heróis ou heroínas de nossa raça. Possivelmente, por esta razão, quase não vemos filmes nesta temática saindo dos fornos industriais de Hollywood. E nem mesmo das mãos dos cineastas afro-americanos.
Portanto, acho que deveria ser nossa atitude, a partir de agora, enviar caminhões de cartas e e-mails protestando e dando um basta para estórias sobre a escravidão. E elas deveriam ser enviadas não somente para a Rede Globo ou para a Rede Record, como também para anunciantes e autores. Deveríamos também fazer manifestações na porta da Globo e da Record, assim como outros atos mais criativos.
Chamo atenção para o lugar simbólico dessas estorinhas. Todas elas reeditam o mito da princesa Isabel. São personagens arquetípicos da cultura brasileira que reeditam e enfatizam o mitológico papel da branca boazinha libertadora dos negros ignorantes e incapazes. E as relações raciais, melhor dizendo as relações racistas, do nosso país dependem deste tipo de formação e confirmação permanente do nosso imaginário ou inconsciente cultural que geralmente utilizam negros subalternos e brancos superiores e paternalistas que sempre “sabem” e gostam de afirmar arrogantemente o que é o melhor para todos nós. Vide o manifesto contra cotas e a dificuldade dos grandes jornais em mudar sua posição editorial mesmo tendo publicado uma pesquisa atestando que dois terços da população brasileira aprova cotas.
Portanto, é hora de pensar seriamente sobre o papel da mídia, especialmente a audiovisual, com destaque para a televisão, como alimentadora da ideologia do branqueamento, que é uma das formas mais cruéis de racismo em toda América Latina.
O Perú continua, até hoje, importando atores brancos argentinos para estrelar suas telenovelas e publicidades, justificando-se com a carência de brancos no mercado audiovisual peruano. O branco é o belo e a melhor representação do humano tanto aqui como no Perú, ou no México (país com mais 85% de população índio-descendente). Simbolicamente, Brasil, México e Perú continuam achando que a vocação pátria é ser países brancos como aqueles que existiam na Europa do século XV.
Todo esforço será inútil se não atacarmos a dimensão simbólica. O peso da linguagem visual com sua estética do branqueamento é enorme na representação que fazemos de nós mesmos. Ainda hoje li na Folha de São Paulo que Luana Piovani está com projeto de um programa infantil para a TV Cultura de São Paulo (lá vem mais uma rainha branca dos baixinhos).
E é aí que reside o perigo. Porque o problema, Senador Paim, não é somente aumentar as cotas de afro-descendentes na TV (o que também concordo e apoio a sua liderança nesta luta). O mal maior é ter o branco continuando como a única representação da beleza e da humanidade de nossas telinhas. O problema é ter produtores e donos de TV achando natural esta cota ilimitada de atores brancos como representação do ideal de beleza nacional. Esta é a maior forma de racismo, ter uma única raça representada como superior, como modelo de beleza e humanidade. Enquanto isto, os nossos atores negros e índio-descendentes (como Dira Paes), continuam como representação do feio, do sujo, do inferior, do subalterno (ou da burrice – a exemplo do único lugar que encontraram para Dira na TV, em A DIARISTA).
Este é o grande racismo que conforma o imaginário de todos nós. Esta é a raiz do grande racismo que faz com que muitos de nós afro-descendentes, especialmente os homens, troquem suas pretas por louras oxigenadas. Esta é a raiz de uma hiper-distorção do imaginário de quem é branco no país, que acaba sendo “civilizado” para compreender a si mesmo como superior a negros e índios de todas as matizes.
E esta é a grande luta simbólica que devemos travar, destruindo a equação racista. Ao invés de apenas dizer que o negro é invisível na mídia, ou reclamar a favor da construção de uma imagem da diversidade racial (como tenho feito até agora), protestar e exigir o fim da ideologia do branqueamento como padrão estético eterno e natural de nossa indústria audiovisual.

Joel Zito Araújo