S. Paulo – Imagine-se andando pelas ruas de São Paulo, com uma dúvida na cabeça: será que ainda existem mesmo muitas pessoas que sofrem preconceito racial? Na dúvida, você opta por entrar num local cheio de gente de várias cores, raças e gostos. Você parou exatamente na Rua 24 de Maio, em frente a popular Galeria do Rock, centro de São Paulo.
Ainda na dúvida, você decide fazer um “tour” pelos corredores e andares do prédio e dá de cara com uma mistura incrível de cores, raças e gostos. Um lugar que abriga, naturalmente, opostos – brancos e negros, lado a lado. Um salão de beleza afro, ao lado de uma loja gótica, em frente a uma loja Emo Core, que fica bem ao lado de uma loja de CDs do Mundo do Rock and Roll.
Provavelmente foi esse o motivo da escolha de forma inconsciente desse lugar para tirar a dúvida.
Histórias
No meio de conversas paralelas e muito barulho, uma voz se faz ouvir: “Sim! Ainda sofro preconceito por ser negra!”. A declaração em tom de desabafo é da empresária Isailda da Conceição Santana, que começou na Galeria há cerca de 15 anos como empregada de um salão de beleza, fazendo tranças rastafári. Hoje ela é dona de quatro salões afros na Galeria.
Isailda lembra de quando começou. O movimento não era tão intenso e só havia dois salões, ambos voltados às tendências afros, o que significava um diferencial. Na época eram poucos os salões desse tipo. “Daí o meu interesse por abrir o meu próprio negócio”, complementa.
Ela conta que primeiro arrendou parte do salão que já trabalhava, no subsolo. E depois adquiriu a loja no segundo piso, que hoje é a matriz. “Foi aí que a perseguição começou”, acrescenta.
“Paguei cerca de R$ 10 mil, na época, para abrir, fora as mensalidades do aluguel. Mas, mesmo com tudo em dia, o síndico Toninho, fechou meu salão alegando que não poderia ter mais salões de beleza na Galeria”, denuncia.
Isailda conta que questionou a proprietária do prédio, o motivo da atitude do síndico e, para sua sua surpresa, não havia proibição alguma. “O maior problema era a minha raça e o meu sexo!”, relembra.
Segundo ela, até hoje, depois de 14 anos, mesmo depois de se tornar dona de mais três salões, o síndico Toninho ainda a persegue. “Sou a única empresária negra aqui na Galeria do Rock. Da minha raça só mais uma pessoa, e ele é homem. O restante são todos brancos.”
Gerando trabalho e renda para os 48 funcionários que emprega, Isailda demonstra sua satisfação, por ter resistido. “Valeu a pena tudo o que passei. Faria tudo de novo”, conclui.
Discriminação
Não satisfeito com esse depoimento, você atravessa o corredor e logo em frente ao Salão matriz, entra em outro, da mesma dona. Lá, você torna pública sua dúvida, e, em pouco tempo, vê pessoas dispostas a responder a pergunta. Dessa vez éi a administradora Juliana Roberta Nascimento, que enquanto cuidava de uma cliente, conta sua experiência. “Cheguei a fazer 32 entrevistas em um único mês.”
A administradora e cabeleleira Juliana diz que, mesmo com um ótimo curriculum (formada há um ano, fala inglês e tem cursos de informática e gestão de pessoas), não consegue trabalho em grandes empresas. “Percebo o preconceito na própria seleção, pessoas menos qualificadas do que eu são aprovadas, e eu não chego nem na segunda etapa da entrevista. O meu grande defeito para eles é ser negra”, afirma.
Chocado com as respostas, você tenta ouvir um final feliz. Inútil: não dá prá ser ingênuo. A realidade nua e crua é essa: mesmo em um lugar em que pessoas de todas as raças convivem todos os dias, como a Galeria do Rock, em pleno centro de São Paulo, o preconceito e a discriminação andam lado a lado.
P.S. A Afropress não conseguiu localizar o síndico da Galeria do Rock para dar sua versão.

Foto de um salão na Galeria do Rock, no relato da repórter Camila Guimarães.