No final do século XIX, a ideologia da superioridade racial chegou a alcançar status de ciência – o chamado racismo científico – com o conde de Gobineau, Nina Rodrigues e outros, e foi utilizada no Brasil para justificar a marginalização da população negra e a adoção de políticas agressivas de branqueamento.
Por isso, chega a ser de um cinismo vulgar; de um descaramento típico de uma elite branca retrógrada e sem imaginação, ressuscitá-la em pleno século XXI. Agora, claro, não mais para afirmar a existência de raças, mas para negá-la, inclusive com o uso, mais uma vez, da Ciência. A divulgação das pesquisas do geneticista Sérgio Danilo Pena, da UFMG, sob patrocínio da BBC Brasil como parte do “Projeto Raízes Afro-Brasileiras”, nas quais Neguinho da Beija Flor e a ginasta Daiane dos Santos são apresentados como portadores de legítima “herança européia”, é parte dessa macabra encenação tardia.
Ora, se até Neguinho da Beija Flor tem mais raízes “européias” do que africanas, essa história de raça e, por conseqüência, de desigualdade racial, só pode mesmo ser invenção, “coisa de negros complexados” – eis a conclusão a que é levado a crer o senso comum.
Ressuscitam o discurso da raça, racializando o debate, mas, para negar sua existência. Seu objetivo é evidente: justificar o descompromisso da sociedade e do Estado com as conseqüências do escravismo e do racismo contemporâneo, que explicam e expõem a desvantagem da população negra em todos os setores de atividade.
Como não há raças, afirmam os neo-racistas, então esta desvantagem só pode ser fruto da incapacidade dos negros de ganharem melhores salários, de chegarem à Universidade, de ascenderem aos postos de comando nas empresas e no Estado.
Trata-se de um raciocínio sofisticado, como sofisticada é a engenharia pela qual opera o racismo brasileiro, certamente o mais perverso do planeta, porque invisível, dissimulado.
O discurso neo-racista
É fundamental que armemos a nossa contra-ofensiva. Os neo-racistas estão no ataque. Fazem política. Maggie, acompanhada de neo-capitães do mato, é recebida pelo presidente da Câmara dos Deputados, como se fora uma espécie de nova “passionária” do conservadorismo neo-racista e retrógrado.
A forma como a mídia – a Revista Veja e a Rede Globo à frente – anuncia a não existência de raças e celebra o Brasil como o “paraíso da miscigenação”, dá a nítida impressão ao desavisado e ou não informado – lamentavelmente a maioria – terem descoberto a pólvora.
Não há nada de inocente nisso. Faz parte da resistência conservadora à luta que se trava hoje no Brasil para que o país reconheça o seu passado de colonialismo e escravismo e os efeitos nefastos do racismo contemporâneo.
O discurso neo-racista dos senhores Ali Kamel, Demétrio Magnoli, Yvone Maggie, Peter Fry, entre outros, é sofisticado. Dizemos mais: sofisticadíssimo, como o é toda a engenharia que sustenta o discurso do racismo brasileiro.
Sua lógica, no entanto, precisa ser captada de saída porque tem como ponto de partida o senso comum. Faltam argumentos para justificar e assumir os efeitos do racismo, filho legítimo do escravismo? Retorne-se ao campo da Biologia que nega a existência de raças. Ou seja: racialize-se novamente a questão, porque aí, embaralha-se mais uma vez o jogo, confunde-se, joga-se areia nos olhos da população, que começa a prestar a atenção na questão da igualdade racial.
Não é por outra razão que os quatro cavaleiros e a dama do apocalipse (como pintam, o que seria o país com o fim do mito/mentira da democracia racial) e os negros neo-feitores e neo-capitães do mato que engrossam esse coro, não têm uma única proposta para enfrentar os efeitos do racismo, que todos, até mesmo o príncipe deles – o geógrafo Demétrio Magnoli – reconhece, como no debate com o professor Hélio Santos no Estadão.
Seu discurso não é diferente do discurso que faziam os anti-abolicionistas. Falam em divisão do país, no caos, em guerra civil iminente; ressuscitam as imagens de hutus contra tutsis em Ruanda, presentes no filme Hotel Ruanda. São os neo-racistas, com o seu pesadelo tardio.
E por que a mídia – a Revista Veja e a Rede Globo à frente – projeta e reproduz de forma privilegiada o discurso do neo-racismo? Ora, acaso não estamos falando dos dois principais veículos, que funcionam como aparelhos ideológicos de uma sociedade onde se desenvolveu esta espécie de capitalismo dos trópicos, como é o capitalismo brasileiro?
Um capitalismo que se alimenta da exploração mais perversa e de um racismo camuflado, que tornam a questão de classe/raça, raça/ classe, as faces de uma mesma moeda.
Aqui não há jornalismo, há propaganda. Propaganda contra as cotas como ficou evidente no caso dos gêmeos da UnB (ver manchete de Afropress), em que o reitor acusou o complexo midiático de ter armado escândalo sem mesmo esperar o fim do processo nem o julgamento dos recursos pendentes.
O papel da mídia neo-racista
Como revela esta Afropress, Veja e Globo mentiram descaradamente, manipularam informação, porque o gêmeo de pele mais clara também foi aceito no sistema de cotas.
Simplesmente, no caso da Globo, usou-se a concessão que é dada pelo Estado para fazer propaganda contra o Estatuto da Igualdade Racial, que sintetiza as medidas em favor da população negra que deveriam ter sido adotadas há 119 anos, quando foi montada a Abolição tipicamente “brasileira”, em que a liberdade para nossos avós e bisavós significou “pé na bunda”, “rua da amargura”, abandono. “Ouvir o outro lado”, nem pensar.
Eis o modelo de jornalismo praticado por Veja e Globo. Não é jornalismo. É propaganda. Propaganda contra o Estatuto, contra as cotas, contra a mobilização do povo negro por seus direitos – igualdade, liberdade, justiça, inclusão, cidadania.
Fazem política, arregimentando dois ou três negros, que se prestam ao deplorável papel, à custa das migalhas que caem da mesa, para justificar o seu cinismo e embaralhar ainda mais o jogo.
E nós, o que fazemos? E nós, o que faremos?
Exigimos que a mídia racista, a Veja e as TVs – a Globo à frente, concessões do Estado – parem de fazer propaganda e exercitem o princípio da sua liberdade editorial sem a atentar contra a liberdade de informação e o direito à comunicação da sociedade.
A mobilização popular pelo Estatuto, proposta pelo Movimento Brasil Afirmativo, começa a tomar corpo em S. Paulo e precisa ganhar o Brasil.
É preciso estender a campanha, dar a ela caráter semelhante à campanha das Diretas, envolver as personalidades anti-racistas, negras e não negras, e levar ao Congresso as milhares de assinaturas que sejamos capazes de levar exigindo numa só voz: queremos a votação do Estatuto da igualdade Racial, já!.