Bauru – Estudantes angolanos da Unesp de Bauru foram maltratados em uma batida policial por soldados da Polícia Militar quando se dirigiam a uma chácara, localizada na divisa com o município de Agudos, interior de São Paulo. Os cinco estudantes receberam ordens dos PMs para deixar o carro onde se encontravam com as mãos na cabeça e sob a mira de revólveres.
O caso da revista aos estudantes africanos provocou a indignação da comunidade negra de Bauru e foi pauta na reunião do Conselho da Comunidade Negra da cidade, da última quinta-feira (12/04). O Conselho decidiu orientar os estudantes a registrar Boletim de Ocorrência relatando o ocorrido e condenou a ação da PM. “A ação da Polícia Militar de Bauru é condenável e não justifica seu trabalho, quando se transgride o direito de ir e vir dos cidadãos negros e negras ou de quem quer que seja”, afirma a nota, assinada pelo presidente do Conselho, Duílio Duka de Souza. Os policiais envolvidos não foram identificados.
A estudante angolana Luana Nascimento, do curso de Jornalismo da Unesp, relatou os momentos de terror em que ficaram sob a revista dos policiais militares. “A brutalidade foi tamanha que a única coisa que me veio à mente foram àqueles episódios da polícia de São Paulo, que mata pessoas que julgam culpadas e as desovam em algum lugar. Tremia, chorava. Um dos policiais voltou-se para mim e disse que se estava chorando deveria ter alguma culpa”, contou.
Ela acrescentou que depois da revista, os policiais ainda vasculharam sua bolsa e mexeram na foto do namorado, perguntando “se esse maluco estava preso”. “Ao se assegurarem de que não tínhamos nada, que éramos todos estudantes da Unesp e os garotos participantes de um convênio entre a universidade e Angola, desculparam-se alegando que tudo era apenas procedimento de rotina. E tudo isso só me fez pensar como humilhação pública de 5 negros em um carro à noite e a morte de um dentista negro “confundido” com um assaltante viraram pretexto e sinônimo de procedimento de rotina em grande parte da ação policial no Brasil”, concluiu.
Segundo Duílio, o Conselho vai pedir ao Comando da PM de Bauru, a adoção imediata de uma política de formação aos seus comandados voltada para as relações sociais e cidadania, destacando a questão étnico-racial.
Uma outra providência será o envio de ofício ao prefeito pedindo a adoção imediata de uma política de promoção da igualdade racial, com a criação de uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, ou, no mínimo, uma Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, para organizar as estruturas para atender as demandas, mapear a população negra e pobre de Bauru e desenvolver atividades sócio-culturais e educativas para a integração dessa população no seu exercício de cidadania.
“Também vamos pedir à Câmara de Vereadores de Bauru, maior atenção na elaboração e aprovação de leis que visem à promoção da igualdade de oportunidade para negros e não negros na cidade”, afirmou Duílio Duka.
O presidente do Conselho de Bauru anunciou que a entidade decidiu aderir ao Movimento Brasil Afirmativo, de caráter nacional, que defende a adoção das ações afirmativas em todos os setores de atividade, como instrumento de superação do racismo e de combate às desigualdades racial e social.

Da Redacao