Rio – As cenas de guerra transmitidas ao vivo pela TV, em que se vêem, de um lado, bandos de homens armados fugindo desesperados e, de outro, famílias inteiras querendo escapar ao cerco das forças militares apoiados por blindados da Marinha de Guerra, não foram suficientes para quebrar o silêncio dos parlamentares negros cariocas eleitos nas eleições de outubro.
Tanto o ex-ministro chefe da SEPPIR, Edson Santos, quanto Benedita da Silva, ex-governadora, ex-ministra e ex-secretária de Ação Social do Estado (foto), optaram, em seus blogs, por ignorar o tamanho da tragédia humana para as milhares de famílias – a maioria das quais negras – alvo dos efeitos colaterais da guerra com o tráfico.
A ex-governadora chegou a comentar em seu blog ter visto “aquelas imagens assustadoras da fuga de criminosos pelas matas da Vila Cruzeiro, na Penha”. “Pudemos distinguir o grande número de jovens negros entre os fugitivos. Espero que esta semana tenha trazido luz à consciência das diversas entidades representativas do segmento afrodescente para que, acima das vaidades pessoais e cores partidárias, unam-se, lutem e participem verdadeiramente das ações pela igualdade racial”, escreveu, fazendo questão de se solidarizar não com as famílias, mas com seu aliado político. “Governador Sérgio Cabral, estamos juntos”, afirmou.
Quilombo
Antes de se tornar favela, a Vila Cruzeiro era reconhecida como Quilombo da Penha, formado no final do século XIX – logo após a Abolição – nas vizinhanças da Igreja de Nossa Senhora da Penha, a quem pertencia as terras de uma fazenda doadas por seu proprietário à Irmandade católica. A formação do Quilombo deveu-se a atuação de um padre abolicionista e republicano. O Santuário foi visitado pela Princesa Isabel, 18 dias antes de proclamada a Lei Áurea.
Já o ex-ministro chefe da SEPPIR, Edson Santos, eleito com os votos majoritários de negros dessas comunidades, preferiu ser mais cauteloso: optou pelo silêncio.
Rompendo o silêncio
Ao contrário da ex-governadora e ex-ministra e ex-secretária da Ação Social, que preferiu a comodidade do “aplauso” ao governador Sérgio Cabral, o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa do Rio, deputado Marcelo Freixo, do PSOL, escreveu para a coluna Tendências e Debates, da Folha de S. Paulo, na edição deste domingo, 28/11, que “Não há vencedores”.
“Esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a Polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo”, afirma.
Freixo, que não é negro, nem tem qualquer vinculação com o Movimento Negro, acrescenta. “Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática”.
Ao comentar o fato de que 99% das pessoas que habitam o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro são trabalhadores negros e que as “dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, (…) em fuga pelo meio do mato” (…)”com as armas nas mãos e cabeças vazias”, (…) “não defendem ideologia” (…)”não disputam o Estado”, (…)”a maioria não concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa”, Freixo, termina. “Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário…”
Prá onde vão
Segundo o economista e professor do Ibmec-RJ, Sérgio Ferreira Guimarães, subsecretário da Adolescência e Infância da Secretaria de Estado e Ação Social, o tráfico, no Rio, emprega 16 mil pessoas, vende mais de cem toneladas de droga e arrecada R$ 633 milhões por ano. O total de empregos é o mesmo da Petrobrás na capital fluminense e a arrecadação equivale a do setor setor têxtil no Estado.
Segundo o mesmo estudo, o tráfico vende o equivalente a cinco vezes mais do que ao total de apreensão anual de cocaína pela Polícia Federal, em todo o país.
Em relação a mão de obra, o pesquisador utilizou estudo da ONG Observatório de Favelas sobre a participação no tráfico de jovens residentes em comunidades e projeções da polícia. Só o complexo do Alemão que está sendo invadido pelas tropas e representa a principal fonte de renda do mercado de de droga hoje no Rio, tem faturamento anual estimado em R$ 8 milhões, de acordo com a Polícia.
Modelo da ditadura
Para o professor Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública e um dos autores do roteiro do filme Tropa de Elite 1 “o modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania”.
“A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados”, escreveu ele em seu blog.
Segundo Luiz Eduardo “o tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar”. “Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios -as bandas podres das polícias – prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia”, continou.
“Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?”, conclui.

Da Redacao