S. Paulo – “O beneficiado fui eu, mas a vitória é coletiva”. Desta forma o professor Kabengele Munanga, uma das maiores autoridades em Antropologia no país, recebeu a decisão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fundação do Ministério da Educação (MEC), de voltar atrás na decisão de excluí-lo da Bolsa para o Programa Professor Visitante Nacional Sênior (PVNS) da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).

Munanga, professor da Universidade de S. Paulo (USP) por mais de 30 anos, autor de vários trabalhos na área da Antropologia da população negra africana e afro-brasileiro é uma referência nacional e internacional no campo das relações raciais e da Antropologia. Embora aprovado com mérito, havia sido desclassificado na fase final do processo convocado pelo Edital 028, lançado no final do ano passado.

Sua desclassificação causou “espanto e comoção na comunidade acadêmica”, segundo as palavras da professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, chefe do Departamento de Antropologia da USP, e protestos de acadêmicos, ativistas e lideranças do movimento negro que viram na desclassificação "sinais evidentes de racismo" por parte da Comissão.

Surpresa

Ele conta que antes de receber a informação da professora Ana Cristina Fermino, Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, no dia 04 de agosto passado, já havia tomado a iniciativa de escrever uma carta a direção da Universidade Federal do Recôncavo agradecendo e pedindo que fosse “botado um ponto final no caso”. “A CAPES havia ficado de dar resposta ao recurso em fevereiro, depois passou prá março e já estávamos em agosto. Eu não podia ficar de mãos amarradas. Prá mim foi uma surpresa porque não esperava mais. Da CAPES eu não esperava mais nada”, afirma.

Para Munanga não há dúvidas de que houve indícios de discriminação na sua exclusão. “O relator deu um parecer elogioso. Mas, os outros membros a gente não sabe quem são nem quais foram os critérios de comparação. Ninguém sabe porque tudo é sigiloso. O parecer é entregue aos membros da comissão por critérios de comparação. Eu era o único negro concorrendo a essa bolsa”, afirma.

Ainda sem saber quando assumirá (provavelmente no ano que vem, já que agora começam os trâmites burocráticos para efetivação da Bolsa, que é de R$ 9 mil reais /mês, por dois anos renovável) Kabengele Munanga se diz estimulado para assumir as aulas e poder repassar sua experiência docente na UFRB. “Sim, estimulado sim. Na minha vida acadêmica nunca fiz outra coisa senão dar aulas. Há 44 anos não faço outra coisa. Depois de mais de 30 anos na USP, tenho certeza de que as aulas em Cacchoeira (campus da Universidade para onde se inscreveu) serão ainda melhores pela experiência acumulada. Estou muito entusiasmado ”, acrescenta.

Ele disse não ter dúvidas de que a pressão feita junto à CAPES deu resultados. “Se não fosse a pressão acho que eles não iam recuar. Da próxima vez quando tiver um candidato negro, penso que ficarão mais atentos”, conclui.

Superado o caso com a volta atrás da CAPES, permanece o questionamento a respeito de quem são os membros da Comissão que excluiu Munanga, cujos nomes são desconhecidos. Embora cobrada a CAPES tem silenciado à respeito e ativistas que se mobilizaram para pressionar a fundação do MEC já cogitam utilizar a Lei de Acesso à Informação para obter a identidade dos autores.

 

Da Redacao