S. Paulo – Sentado numa das últimas fileiras do auditório da CONE, no centro de S. Paulo, na reunião da ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, com ativistas, o Coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), Reginaldo Bispo (foto), disse querer acreditar que Bairros “está na fase de engolir sapos para tentar construir alguma coisa futuramente”.
“Há dois motivos para se estar em um Governo apesar das contradições do governo. O primeiro deles seria a garantia do espaço de emprego, de prestígio, de salário. O segundo, talvez a crença de que é preciso engolir alguns sapos para poder tentar construir alguma coisa mais produtiva num futuro próximo. Quero acreditar que a situação da ministra Luiza seja a segunda hipótese”, afirmou.
Segundo o dirigente do MNU, a posição do Movimento em relação a ministra – que foi dirigente da organização até 1.984 – “é ainda de tolerância e paciência porque três meses realmente, é muito pouco”.
“Agora acho que daqui a mais três meses, é preciso que comecem aparecer ações, sob pena de, aí, a coisa começar a se complicar e o posicionamento dos parceiros que estavam na SEPPIR e que foram alijados das posições, é o seguinte: vai ter mais gente fazendo coro com esses caras que estão já hoje bastante descontentes com os acontecimentos por parte do ministério”
Encontro
Bispo é o principal organizador do Encontro “A procura da batida perfeita”, que acontece esta semana, com início na quarta-feira (14/04), na sede da APEOESP, na Praça da República, centro de S. Paulo e com presença confirmada de lideranças do movimento negro e intelectuais como Sueli Carneiro e Yedo Ferreira.
O Encontro, que deverá reunir até o dia 17/04, na Escola de Formação Florestan Fernandes, em Guararema, cerca de 50 militantes e intelectuais comprometidos com um projeto popular, tem como objetivo a discussão de análises teóricas e propostas concretas para desenvolvimento de um Programa para o Projeto do Povo Negro para todos os Brasileiros.
Também deverá ser discutida a formulação de um conceito de Reparação Histórica e Humanitária, “por causa do colonialismo, o tráfico de africanos, a escravismo e o racismo como efeito continuado”, segundo seus organizadores.
A ministra Luiza Bairros havia sido convidada para a abertura no dia 14, porém, depois de confirmar presença, voltou atrás. Segundo Bispo, assessores de Luiza Bairros ligaram informando que ela não participará.
Leia, na íntegra a entrevista do líder do MNU à Afropress,
Afropress – Quais foram as suas impressões com a exposição da ministra Luiza Bairros
Reginaldo Bispo – Há dois motivos para se estar em um Governo apesar das contradições do governo. O primeiro deles seria a garantia do espaço de emprego, de prestígio, de salário. O segundo, talvez a crença de que é preciso engolir alguns sapos para poder tentar construir alguma coisa mais produtiva num futuro próximo. Quero acreditar que a situação da ministra Luiza seja a segunda hipótese.
Ora, ela tem uma escola, que é a mesma escola minha e eu quero acreditar que essa escola serviu para que ela circule com desenvoltura no meio do poder, e que consiga abrir brechas para implementar um programa que seja adiante das propostas que foram colocadas pela SEPPIR até o momento.
Nossa posição é ainda de tolerância e paciência porque três meses realmente, é muito pouco. Agora acho que daqui há mais três meses, é preciso que comecem aparecer ações, sob pena de aí e aí a coisa começa a se complicar e aí o posicionamento dos parceiros que estavam na seppir e que foram alijados das posições, é o seguinte: vai ter mais gente fazendo coro com esses caras que estão já hoje bastante descontentes com os acontecimentos por parte do ministério.
De uma coisa nós temos muito claro e acho que ela também deixou muito claro. A SEPPIR atingiu o teto, atingiu o limite para onde a SEPPIR podia avançar. Agora daqui prá frente vai depender seguramente da vontade dos gestores e da compreensão do conjunto da militância para esses limites sejam arrombados e nos favoreça nas questões.
Por enquanto, a nossa posição ainda é de ter tolerância e paciência com a ministra porque três meses realmente é muito pouco. Agora acho que daqui há mais três meses, é preciso que comecem aparecer ações, sob pena de, aí, a coisa começar a se complicar e o posicionamento dos parceiros que estavam na SEPPIR e que foram alijados das posições… O que quero dizer é que vai ter mais gente fazendo coro com esses caras que estão já hoje bastante descontentes com os acontecimentos por parte do ministério.
Afropress – Você lidera uma articulação que propõe um movimento negro, autônomo, independente e capaz de apresentar um projeto de qual é, de fato, a posição que interessa à população negra no projeto de país. O que exatamente você espera dessa iniciativa ?
Bispo – Primeiro, o Movimento Negro Unificado quando surgiu em 1.978, tinha como proposta organizar a população e lutar pelas suas reivindicações e contra o racismo. E esse é um projeto que esteve sempre na ponta das relações do MNU apesar de, nos últimos anos, haver um setor que acredita que as relações com as instituições, com o Estado, são mais favoráveis para conseguir o seu intento.
Nós temos uma visão diferente. Estamos fazendo um processo de retomada daquela concepção que o MNU tinha no seu início, óbviamente, baseado nas condições atuais e nas relações raciais atuais que agente tem no Brasil.
Nós temos a compreensão que esse é o momento mais grave da nossa história, já que todas as manifestações racistas dos vários segmentos da sociedade brasileira – no Estado, na Academia, nos quartéis, no Parlamento, no Judiciário – todas as manifestações caminham numa mesma direção, ou seja, todas as ações desses setores são contra, especialmente, a população negra.
Isso é que agente combate hoje e é prá isso que agente quer preparar essa parcela da população; prá entender que só a nossa organização, só um programa que nos uma, só a unidade de ação é capaz de reverter essa situação pressionando os governos em vários níveis e as instituições desse país.
O Encontro que agente realiza no próximo final de semana de quatro dias, sendo um dia aberto a população, que é o dia 14, as 18h, na Apeoesp, na Praça da República, nesse dia agente vai estar discutindo essa questão da conjuntura e da criminalização dos movimentos sociais. Porque é isso, em última instância, o que agente tem observado, na medida em que a direita e o racismo avançam e ao mesmo tempo a repressão aos movimentos sociais se dá, de uma forma muito bem articulada, entre a Polícia, o Governos, e em muitos casos, o próprio Judiciário.
Agora, o restante da programação é uma programação voltada para setores que, no Brasil inteiro, estão discutindo isso; vão estar 10 Estados presentes. No Brasil inteiro se discute. Nós temos uma conjuntura especial, nós tempos problemas na relação com os Governos, os Governos fazem vistas grossa para as ações policiais que matam a juventude, com o racismo que se pratica no comércio, na vida, no mercado de trabalho, enfim, em todas as áreas. E é preciso dar um basta nisso.
Só é possível fazer isso a partir da articulação de setores que tem a compreensão de que sob a perspectiva institucional, nós estamos deveras derrotados. O Estatuto foi muito essa derrota para todos nós. E é hora da gente se rearticular com os setores que nos são solidários para poder fazer o combate inverso.
Afropress – Não necessariamente dentro dos partidos…
Bispo – Nós entendemos que a legislação brasileira estabelece, diferente da Venezuela, que o Partido é o único espaço onde se discuta a política institucional. Nós queremos fazer política popular. Não signfica que abandonamos de todo a idéia de partido, mas nós temos claro que o partido tem que ser porta-voz das preocupações da sociedade e não o único representante e falar por si mesmo, independente de ouvir os reclamos ou de respeitar a posição da sociedade. Não é essa a nossa perspectiva.
Em princípio, nós não temos vínculo partidário, não queremos vínculo partidário, nós queremos buscar novas de organização da população prá fazer ação direta e pressão direta.

Da Redacao