Em 1992 a cidade de Los Angeles viu uma das maiores ondas de violência de sua história. Durante três dias ocorreram saques, depredações, mais de 50 pessoas morreram e todos os jornais do mundo noticiaram o acontecimento como um grande ato de protesto contra a violência policial e a fragilidade do sistema jurídico americano de julgar casos de racismo.

Alguns dias antes o taxista Rodney King havia sido brutalmente espancado por quatro policiais negros, acusado de dirigir em alta velocidade. Foram a julgamento e absolvidos por um júri composto por um negro, um asiático e dez brancos. Foi o suficiente para a cidade explodir e acontecer tudo que já foi relatado no parágrafo acima.

O Brasil, em apenas dois meses do ano de 2014 vivenciou situações que são, simplesmente impensáveis em qualquer outro lugar do mundo: o caso de racismo contra o jogador Tinga, ocorrido no Peru, quando os peruanos imitavam sons de macaco toda vez que o atleta pegava na bola; o caso dos justiceiros espalhados pelo país que agora resolveram acorrentar, bater e torturar pequenos delinquentes e depois deixá-los expostos à execração pública e, por fim, o caso da australiana que discriminou uma manicure em Brasilia, já tem históricos de problemas assim no trabalho e ainda assim, pasmem, foi solta por habeas corpus, mesmo sabendo, todos nós, que no Brasil, racismo é crime inafiançável graças à Lei Caó.

Faço estes paralelos para mostrar o quanto estamos distantes, como sociedade civil organizada de estabelecer, com o Estado a relação de força que outros países já conseguiram lograr. Independente dos fatores históricos que todos nós conhecemos que levaram o negro brasileiro a estabelecer com outro negro uma relação de disputa e praticamente autofagia, o fato é que já temos muitas décadas de organização social e ainda não conseguimos estabelecer as bases reais e concretas para a construção de uma unidade nacional em torno de alguns temas.

Temos assistido desde o ano passado uma série de ações promovidas em todos o país por grupos manifestantes que começou por conta dos aumentos de passagens e hoje já se fala de uma agenda tão ampla que praticamente se pulverizou. Note-se no entanto, que um novo foco está se formando que são ações contra a realização da Copa do Mundo no país. É possível que vejamos, nos próximos meses o recrudescimento dessas ações e desdobramentos graves da reação do Estado contra estes movimentos.

Nos chama a atenção o movimento dentro do movimento. Os Black Blocs, surgidos em 1999 nas manifestações contra a reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, EUA, usa de táticas violentas, rostos mascarados e não se sabe exatamente o que querem, mas eles chegam quebrando tudo e confrontando diretamente o aparato de segurança.

Inspira-nos o nome do movimento para perguntar: onde o movimento negro entra numa agenda política dominada por grupos chamados Black Blocs? Como o Movimento Negro reage a casos flagrantes de racismo, preconceito, discriminação e violação das leis que foram feitas para defender a população negra? Qual o porque desta fragilidade institucional das organizações nacionais que não conseguem dialogar com a sociedade e nem com a mídia para dar respostas positivas a temas tão importantes para a nossa sociedade.

Penso que o século XXI exige de todos nós estratégias mais complexas e sofisticadas do que aquelas que usamos no século passado e que serviram para aquela época mas não nos serve mais na era da Tecnologia da Informação. Analisando todo este contexto, tudo que está exposto penso que nossa grande falha, com movimento social, é nos fecharmos em nossas agendas, em nossos nichos políticos e não avançarmos na construção de uma agenda comum, ampla, que nos permita agregar não só as organizações sociais do Movimento Negro, mas todas as outras que lutem contra o racismo e contra qualquer outra forma de discriminação em nosso país.

Nesse sentido, conclamo meus pares, operadores políticos do movimento social a pensarmos juntos a construção de uma Plataforma Brasileira pelas Ações Afirmativas, para, sob um mesmo “guarda-chuva” institucional discutir os seguintes temas: 1) ações afirmativas e políticas de cotas; 2) racismo ambiental e desenvolvimento sustentável; 3) políticas culturais; 4) liberdade religiosa; 5) violência e juventude negra nos grandes centros urbanos.

Partimos da compreensão tática e estratégica de que o Movimento Negro não se basta sozinho nesta discussão. Que a questão étnicorracial não é um problema da população negra brasileira, mas da sociedade brasileira como um todo. Nesse sentido, acreditamos que somente uma ampla aliança política entre distintos atores sociais permitirá a constituição de um somatório de forças contra a reação conservadora que a cada dia se estrutura para fazer frente às ações afirmativas em nosso país.

A constituição desta Plataforma, inspirada em movimentos anteriores tais como a Plataforma Dhesc e a Cris Brasil, permitirá uma aliança ampla e, ao mesmo tempo extremamente qualificada, visando defender os temas propostos para a constituição desta rede.

A possibilidade de aliança política entre setores do Movimento Negro e inter-setores do movimento social brasileiro permitirá a constituição de uma ampla rede onde “todos” buscarão falar a mesma linguagem para defender os pontos propostos acima.

Uma aliança como está que sendo construída nunca foi proposta, portanto tem um elemento forte de novidade e, ao mesmo tempo, traz ao cenário uma nova forma de atuar politicamente, onde se percebe que a soma de forças faz surgir um ator político mais robusto e influente.

Entre 2010 e 2011 algumas tratativas foram feitas nesse sentido com algumas organizações e a recepção foi muito boa. Penso que o momento é agora e a hora é esta, para colocarmos esta ideia em ação. Creio ser fundamental que as organizações nacionais manifestem sua opinião sobre esta proposta para que, juntos, possamos refinar melhor a ideia e partir para a construção de uma agenda política pró-ativa na luta contra o racismo e qualquer forma de discriminação em nosso país.

Nota da Redação:

O jornalista Márcio Alexandre M. Gualberto é também Coordenador de Política Institucional do Coletivo de Entidades Negras (CEN).

Marcio Alexandre M. Gualberto