Assim surgiu, no mês passado, em S. Paulo, a Regard Cosméticos, que tem como objetivo, além de oferecer, pesquisar e apresentar produtos, inclusive hidratantes e anti-transpirantes, quase que exclusivamente para o público negro. Os produtos podem ser adquiridos via Internet, acessando-se o site de qualquer lugar do Brasil (http://www.regard.com.br) ao mesmo preço das lojas no varejo.
A idéia da empresária é conseguir das empresas fabricantes preços especiais (ao menos os que são oferecidos no atacado) para que os produtos possam ter preços cada vez mais competitivos.
“Encontramos hoje alguns produtos bons para atender o público negro, porém, estavam espalhados em diversos endereços virtuais ou físicos. Essa comunidade se destina a um público que, geralmente, não é lembrado como consumidor potencial”, afirma.
Márcia, que é analista de sistemas, começou a desenvolver a idéia em 2003, porém, conta que só o processo de lançamento da loja demorou um ano, desde o registro da empresa, pesquisa de mercado, testes de produto e geração da foto-referência que é uma inédita no mercado brasileiro.
A proposta da loja virtual, que também tem uma linha de produtos para orientais, é ousada: primeiro, a empresária quer conquistar o mercado interno, com produtos de qualidade e depois buscar o mercado externo. A intenção é também influir na decisão dos fabricantes a darem maior atenção ao público negro.
Veja, na íntegra, a entrevista.
Afropress – Como surgiu a idéia da criação de uma loja virtual para negros e negras?
Márcia Deraoui – Sou da área de administração e sistemas, mas sempre me interessei pela área cosmética. Em 2003 fui diretora do jornal Beleza & Cia News, juntamente com outra profissional de Sistemas, Renata Santos Dias. Fizemos um jornal diferente, onde a lógica era questionar e responder sobre estética sob a ótica consumidora. Nesse período descobrimos muita coisa e uma delas é que a pele negra fica à margem da variedade de produtos nas prateleiras.
Experimentei muitos produtos inadequados para minha pele e que se apresentavam com indicação para pele negra.
A criação da loja é resultado de todas essas experiências, aliada ao fato de ser uma consumidora virtual. Queria rapidamente encontrar produtos num único endereço na internet; não havia nenhum.
Mais do que isso, apresentam-se produtos com três cores na tela do computador, como identificar o meu tom de pele? Foi mais um desafio que resultou na criação da foto-referência que a loja apresenta.
Afropress – Como o seu trabalho se relaciona com a importância do povo negro resgatar sua auto-estima?
Márcia – A auto-estima está relacionada ao bem estar pessoal. E bem estar pessoal envolve corpo e mente saudáveis, satisfação consigo e com sua imagem, o que resulta em auto-confiança. Nisso os hábitos e os itens de higiene pessoal são fundamentais; os cosméticos vêm então complementar, acrescentar. É um círculo: Havendo bons produtos, criam-se os hábitos, cresce a auto-estima, aumenta a confiança e em breve não falaremos mais em resgate, mas de consciência de que somos todos fortes, belos e inteligentes.
Vejamos o mercado cosmético: A maior parte do investimento nessa área para o público negro está concentrado em produtos capilares. Só precisamos cuidar dos cabelos?
Precisamos também de soluções para demais itens que exigem cuidados específicos como transpiração, lábios, oleosidade da pele, barba, maquiagens. Temos necessidades diferenciadas e merecemos esse espaço no mercado, somos potenciais consumidores.
Quero que a Regard seja um instrumento da valorização da beleza negra e uma loja onde o negro saiba que ali a estrela é ele.
Afropress – Pela experiência inicial, quais os desdobramentos que iniciativas como a sua podem ter?
Márcia – Espero realmente, que várias ações aconteçam. Espero chamar a atenção de fabricantes que ainda não dedicaram nenhum tipo de pesquisa ou produto ao público negro para que o façam. Espero fazer da Regard a vitrine que aproxima esse produto do consumidor negro através da credibilidade dos serviços.
Aos fabricantes que já investem neste mercado como Bozzano, Muene, Avon e outros, que sintam-se estimulados a lançar mais produtos pois o que temos hoje disponível ainda é pouco. E o que o consumidor negro sinta-se valorizado, que seja mais exigente e cobre do mercado.
Afropress – Onde está e em que ramo atua o empreendedor negro?
Márcia – Não creio que tenhamos dados consistentes a esse respeito. Poderia arriscar em dizer que a maioria dos empreendedores negros atua na prestação de serviços, mas seria impreciso.
Como empreendedora busquei apoio de algumas organizações e até encontrei bons projetos que buscam fortalecer as minorias, mas ainda sinto o assunto pulverizado em várias iniciativas, Ongs, Fundações, Associações. A tendência natural é que uma ou duas tornem-se ponto de referência e aí poderemos mapear a presença negra no empreendedorismo. Acredito que o Sebrae terá uma grande participação nisso.
Afropress – Faça as considerações que considerar pertinentes.
Márcia – Todo ineditismo é ousado. Não tenho referências ou cases, mas conheço o público para o qual estou oferecendo serviços. Somos empresários, estudantes, secretárias, artistas, técnicos, internautas em geral, em busca de boas opções de compra. O comércio virtual cresce vertiginosamente e agora o público negro pode dizer que tem um olhar virtual sobre ele (Regard significa olhar com atenção, respeito). Ter obtido esse apoio da Afropress nos mostra que estamos no caminho certo. Muito obrigada.

Publicidade da Regard Cosméticos – Entrevista ao editor, jornalista Dojival Vieira.