S. Paulo – O número de famílias adotantes que perderam as restrições a adoção de crianças negras está se reduzindo: hoje 42% dessas famílias não fazem mais restrições, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, com base no Cadastro Nacional de Adoção, que reúne informações sobre 30 mil pretendentes e cinco mil crianças. Em 2001, 31% das famílias recusavam a adoção de crianças negras, de acordo com reportagem postada no G1 – Portal da Globo.

O estudo mostra que o percentual de pais que só aceitam crianças brancas também caiu nos últimos três anos: de 38% para 30% – enquanto que as famílias que aceitam crianças indígenas, pardas e pretas, subiu.

Mudança de cultura

Segundo o Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Suzana Schettini, está havendo uma “mudança de cultura”, fruto de um trabalho intenso dos grupos de adoção no país.

"As pessoas estão deixando de lado essa questão de a cor ser importante. O amor não tem cor. Pelo lado de dentro somos todos iguais. Muitos pretendentes ainda fazem a exigência da mesma cor no sentido de formar uma família considerada padrão, socialmente ideal. Na medida em que a gente vai falando de adoção e a sociedade e a mídia colocam o assunto em pauta, os preconceitos caem por terra. E as pessoas não vão se importando se a família é colorida. Passa a ser algo bonito. Isso cria uma esperança para muitas crianças que aguardam uma família nos abrigos", afirma.

Racismo

O racismo arraigado na sociedade ainda é responsável pelos altos índices de rejeição a adoção de crianças negras, o que faz com que muitas envelheçam nos abrigos.

 

A dona de casa Odiceli Maria Ferreira, 48 anos, contou ao repórter Thiago Reis, do G1 S. Paulo, que adotou Milton com 16 anos, quando ele tinha 2, em Belém, Pará. A mãe biológica do garoto enfrentava dificuldades financeiras e não teve como cuidar dele. "Na época eu estava fazendo tratamento contra depressão. E ele apareceu na minha vida e me ajudou muito. Foi uma troca", afirmou.

A dona de casa que é branca, afirma que teve de passar por situações desagradáveis em que ele foi alvo de discriminação por ser negro.

"Uma vez entrei em uma loja e estava afastada dele. Foi quando vi que uma atendente demonstrou medo, achando que ele pudesse querer roubar algo. No momento em que notei, falei que ela não devia pré-julgar uma criança pela cor. Ela acabou me pedindo desculpas", diz.

Segundo a dona de casa, o próprio Milton chegou a demonstrar certo desconforto durante a infância. "Um dia ele chegou para a avó e perguntou por que ela não jogava cal nele para que ficasse branco como os outros netos. Mas aí a gente foi conversando", afirma.

Ela disse que a família o recebeu com muito carinho, o que ajudou na adaptação. "Quando o Miltinho chegou, meu outro filho, o Rafael, ficou com ciúmes. Hoje eles têm uma amizade muito boa. Todos são apaixonados por ele, que sempre foi uma criança muito carismática", conta com orgulho.

 

Da Redacao