S. Paulo – O Dia das Crianças se aproxima e uma boa pedida é dar um brinquedo diferente e original. Ao contrário das tradicionais bonecas loiras, porque não oferecer a uma criança negra uma boneca parecida com ela? Quem pensa que isso não é possível se engana. As bonecas negras começam, aos poucos e de maneira tímida, a ocupar as prateleiras das lojas. Já há cerca de quatro empresas que produzem bonecas do tipo “bebezinho” e artesãos que com produção em pequena escala.
“Quando uma menina negra brinca com uma boneca semelhante a si, ela se vê representada e, assim, há uma melhor identificação e, principalmente, aceitação”, afirma Genésio de Arruda que produz bonecas negras há 4 anos. Segundo ele, as crianças negras e, nesse caso, principalmente as meninas, sofrem de auto-rejeição e inferioridade porque a grande maioria das bonecas com que brincam são loiras.
“A menina não se vê representada e isso dificulta a aceitação da sua raça porque ela quer ser igual à sua boneca”. Nesse ponto, esse tipo de brinquedo é um auxiliar do desenvolvimento emocional e social da criança”, afirma.
Cidinha da Silva, Diretora do Instituto Kuanza reitera a importância dessa idéia. “Ao brincar, as crianças inventam o mundo, criam e apreendem valores e é muito salutar que as crianças negras brinquem com bonecas parecidas com elas”. Além disso, ela acrescenta que esse tipo de brinquedo é importante pois pode ajudar a diminuir o preconceito. “Para as crianças brancas, a possibilidade de desenvolver afeto por uma boneca negra pode ser um contraponto interessante aos estereótipos atribuídos às pessoas negras e veiculados nos meios de comunicação”, diz.
Genésio conta que começou a produzir as bonecas devido ao racismo que existe no Brasil. “Tudo o que se refere a negro nesse país tem conotação negativa: dia negro, ovelha negra, câmbio negro são expressões que ficam na cabeça das pessoas e contribuem para aumentar ainda mais a negatividade e a inferioridade”. Ele afirma que os próprios negros têm preconceito contra si. “A grande maioria dos que me vêem vendendo as bonecas no metrô não se aproximam. Quem mais compra são os homens, especialmente, os brancos, porque as acham diferentes e as crianças brancas também adoram”, diz.
Na área educacional, Cidinha diz que é necessário que se exija das escolas a presença desse tipo de brinquedo em suas listas. Ela ainda afirma que existe a possibilidade de não-escolha desse brinquedo tantos pelas crianças negras quanto pelas brancas e que, nesse caso, há “potencialidade pedagógica de grande riqueza que, poderá ser explorada pelo educador responsável por aquele grupo de crianças ao decodificar, junto com elas, o significado desta não-escolha, acrescido da construção de novos significados e representações do negro que poderão levar essas crianças a colocar as referidas bonecas num lugar de valorização”.
Dessa forma, um presente como esse é mais que um passaporte para o mundo lúdico é, na verdade, um instrumento de valorização do negro em detrimento à auto-rejeição e autodestruição.

Da Redacao