Segundo a matéria, o autor da novela, João Emanuel Carneiro, teria buscado inspiração em seriados cômicos americanos. Pode até ser, desde que sua idéia tivesse sido mantida, o que causa certa suspeita pois foi também autor da novela “A cor do pecado”, deixando transparecer que a cor retratada na novela representaria “pecado” criando muita polêmica!
Não se perca de vista que na maioria dos filmes americanos, ainda que em série, o negro é apresentado ocupando cargos/funções de altíssima relevância, iniciando por Sidnei Poitier, passando por Denzel Washington, Louis Gosset Júnior, Wesley Snipes, Halle Barry, Jamie Fox, e tantos outros, não esquecendo ainda que à Morgam Freeman foi dada a oportunidade para interpretar Deus em o “Todo Poderoso” (imagine um DEUS e NEGRO!), Presidente dos EUA em “Impacto Profundo (imagine Presidente do País mais poderoso do mundo e NEGRO!) e tantos outros, sem contar com a infinidade de seriados e filmes nos quais os negros são grandes empresários, médicos, professores, engenheiros, advogados, promotores de justiça, invariavelmente chefes de polícia, militares de alta patente, Juízes, etc.etc. E aqui no Brasil o negro só serve para retratar fome, miséria, violência, subserviência, o negro atrás das grades, enfim, tudo que é ruim a TV brasileira insiste em apresentar destruindo a auto-estima de nosso povo.
O novelista ao criar a “família de negros” protagonizada por excelentes profissionais (Thaís Araújo, Lazaro Ramos, Ailton Graça) pecou irremediavelmente, na medida em que os mesmos postam-se de maneira jocosa, cômica, notadamente se se considerar que não se trata de programa do gênero! Aqueles que assim não pensam tentam defesa sustentando que se trata de ficção, todavia, é consenso que novela cria modismos e é formadora de opinião. Assim não se pode alegar que se trata de ficção!
Erro imperdoável foi a alegação do autor da novela afirmando que criou “personagens que tem a ver com a nossa sociedade, que tem negros de alma branca e brancos de alma negra”. A expressão utilizada afasta a idéia de ficção e bem demonstra total desconhecimento de causa, pois de há muito se sabe que a mesma – expressão – tem cunho eminentemente racista e é abominada pelo movimento negro Nacional. Nessa esteira dever-se-ia submeter, especialmente as novelas, a uma pré-avaliação para evitar tais ocorrências, haja vista que inegavelmente os autores estão muito longe da realidade fundada na educação eurocêntrica que até os dias de hoje não tratam o NEGRO com dignidade! É bom lembrar e refletir a respeito do provérbio popular italiano que diz “SE DESEJA UMA OPINIÃO SOBRE CORES, JAMAIS PERGUNTE A UM CEGO”.
É impressionante e revoltante denotar que a televisão brasileira insiste em destruir a imagem e auto-estima do povo negro oferecendo-lhe, especialmente nas novelas, papéis que o ridiculariza, não lhe oferecendo oportunidades para demonstrar capacidade de interpretação em tramas que lhes valorizem enquanto artistas e pessoas formadoras de opinião, assim como o povo que construiu e constrói esta Nação.
Por que não escrevem sobre os grandes personagens negros da Nossa História ou mesmo ficção? Se se quer copiar idéias Americanas tome-se de exemplo os temas abordados por Spike Lee!
O negro luta há muito por oportunidade, e nesse mesmo caminho, a TV deveria seguir o exemplo da TV Cultura que tem em sua programação a Jornalista Maria Júlia Coutinho comandando o jornal Cultura ao Meio Dia – estreando com o Mestre Heródoto Barbeiro – pois o negro deve não só ancorar telejornais, mas avaliar as matérias a serem publicadas desde as imagens até a redação para evitar expressões racistas tais como : “lista negra” ; “mercado negro” ; “câmbio negro”, “nuvens negras”; “trânsito negro” ; “pontos negros” ; “denegrir”; e por ai vai, sempre ligando “negro” com fato ou situações de violência, caóticas, ilicitudes, desastres etc.etc.
O Brasil é tido como o “Pais do Futebol” – e o é. Os melhores jogadores do mundo são brasileiros e negros. Todavia – estranhamente – não temos técnicos de futebol negros! Não temos comentaristas esportivos negros! Indago: Se são os melhores por que não servem para dirigir as equipes? Se são os melhores por que não integram os grupos de comentaristas esportivos?
Ainda falando de futebol, na disputa entre Brasil e Japão, alguns entrevistadores indagaram aos nipodecendentes se estariam torcendo pelo Japão ou pelo Brasil? Quando o Brasil disputou com Gana, não indagaram se os afrodescendentes torceriam pelo Continente Africano ou pelo Brasil?
A televisão, além das barbáries que apresenta, serve muito bem para vender. Indago: Se o negro é consumidor, por que não veiculam matérias publicitárias com protagonistas negros, para que haja uma perfeita identificação do produto com o consumidor?
Com todo o respeito às apresentadoras de programas televisão, todas demonstram representar países nórdicos ou do leste europeu, pois temos somente a Glória Maria (diga-se “Fantástico!”) Não é crível que tenhamos ½ dúzia pessoas (jornalistas) em mais de 80 milhões de brasileiros!
Encerrando a matéria informam que Netinho teria dito que: “Eles tem o jeito de levar a vida e o gingado do brasileiro”, na alusão de que o cantor concorda com a novela. Não consigo acreditar que o Netinho teria feito esse comentário e com essa visão, pois ele sabe muito bem que o ser humano cresce de acordo com exemplos e o exemplo apresentado na novela não eleva ninguém remetendo a ouvir atentamente e entender a mensagem do Grande Jorge Aragão em “Identidade” : “SE PRETO DE ALMA BRANCA PRA VOCE É EXEMPLO DA DIGNIDADE, NÃO NOS AJUDA SÓ NOS FAZ SOFRER NEM RESGATA NOSSA IDENTIDADE”.
Considerando todo o exposto, e a força que tem a Televisão, a fala de Nelson Mandela – Premio Nobel da Paz 1993 – é providencial: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Eginaldo Marcos Honório