João Francisco obteve a segunda maior pontuação na história da Universidade – 759 pontos (30 por ter cursado escola pública e mais 10 por ser pardo e fazer parte do Programa de Ações Afirmativas e Inclusão Social (PAAIS) – e passou em mais sete Universidades, entre as quais a PUC e a USP. Ele foi aluno, desde a 5ª série do Colégio Militar em Campo Grande, onde morou. O pai é tenente coronel do Exército. Veja a entrevista de João Francisco à Afropress.
Afropress – Como você se sente tendo sido o primeiro colocado geral no Vestibular da Unicamp, que é reconhecidamente um dos mais difíceis e concorridos do país?
João Francisco – Bem, a ficha não cai. É algo muito inacreditável, fiquei muito feliz mesmo, porque eu não estava com confiança nem no fato de passar em 1ª chamada.
Afropress – Qual é a sua opinião sobre as cotas e as ações afirmativas, e qual avaliação faz do Programa da Unicamp?
João Francisco – Eu sou extremamente a favor. Antes de mais nada, o PAAIS foi estudado por muito tempo antes de ser implementado, para que se tivesse a certeza de que o processo de seleção não se tornaria injusto. É uma pontuação extra que serve para alterar um pouco a classificação e colocar dentro da Unicamp estudantes de escola pública que ficaram por poucos pontos. E já foi demonstrado que os alunos que entram com o bônus do PAAIS costumam se sair melhor dentro da faculdade que quem veio de escola particular.
Afropress – Você tem a noção de que, sendo o primeiro colocado geral na Unicamp, passou a ser um exemplo para milhões de meninos e meninas negras que lutam por acesso à Universidade e por inclusão?
João Francisco – Ainda não captei a grandiosidade do fato, mas, se for pra ser exemplo positivo, que assim seja.
Afropress – Já decidiu qual o curso fará?
João Francisco – Sim! Cursarei engenharia química na Unicamp.
Afropress – Como é que você sente a realidade do racismo e da discriminação em nosso país?
João Francisco – Assim como eu respondi no questionário do ENEM, vou responder agora. Eu, particularmente, nunca enfrentei problemas com preconceito, mas penso que o preconceito hoje em dia é pior. É mascarado através da pior condição social do negro em relação ao branco, que começou lá atrás.
Afropress – Qual é a sua opinião sobre as cotas e os Programas de Ação Afirmativa?
João Francisco – Não sou a favor de cotas, mas sim de progamas de ação afirmativa como o PAAIS. O preconceito social hoje em dia é mascarado, está em números, como o fato de salários de negros que exercem a mesma função de brancos receberem menos. O grande problema das cotas é que elas comprometem a qualidade do ensino nas instituições públicas e tornam o processo seletivo bastante injusto. Sim, as pessoas que estudaram em escola pública tem que ter uma compensação por não terem tido a oportunidade de estudar em um sistema de ensino público “melhorado” e, essa “compensação” vem através de programas de ação afirmativa como o da Unicamp. Eu tenho esperanças de que um dia o ensino público se iguale ao ensino particular e não sejam mais necessários programas de ação afirmativa. Tive sorte de ter estudado num colégio público que tem uma qualidade igual ou até superior à de muitas particulares. Só isso!
Afropress – Você se tornou conhecido em todo o país com o resultdo do Vestibular. Como é o seu dia a dia?
João Francisco – Moro no bairro Paraíso de São Paulo e, bom, não gosto muito de futebol (genética de pai que também não gosta). Prefiro vôlei, basquete, judô. Eu me divirto de várias maneiras, gosto de cinema, teatro, sair com os amigos, nada fora do normal.

João Francisco Ferreira de Souza