Afropress – Como o movimento indígena está se articulando para garantir as propostas aprovadas na Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, inclusive a que trata da criação de uma Secretaria dos Povos Indígenas?
Marcos Terena – A Conferencia Nacional foi uma experiência, tanto para a SEPPIR como para as representações indígenas, mas foi uma oportunidade que tivemos para expor feridas ainda não cicatrizadas em relação ao Governo Federal, especialmente em relação a Lula. O governo petista, assessorado por um indigenismo clientelista e tutor, pensa em criar um conselho mas, ainda não conversou com os grandes chefes – apenas com organizações indígenas que nem sempre representam suas comunidades. O ideal para a maioria das comunidades e povos indígenas continua sendo uma Funai forte, no caso, uma Secretaria com status de Ministério e dirigida por um indígena. De toda forma, diante do quadro político do Governo Lula e do PT, achamos que temos que carregar as baterias para uma aproximação com os candidatos a Presidência da República, afinal a campanha já começou.
Afropress – Como está a relação com a Seppir?
Terena – A SEPPIR, tendo a Ministra Matilde à frente, foi a grande inovação conquistada pelo movimento negro em parceria com o movimento indígena pós-Durban, mas apesar da promessa de se criar uma sub-secretaria para assuntos indígenas, isso ainda não foi concretizado. Estamos trabalhando para que durante a conferencia Santiago+5, isso seja concretizado, tendo um indígena na sua coordenação.
Afropress – Como o movimento indígena acompanha a crise política desencadeada com as denúncias do mensalão?
Terena – O pensamento das lideranças tradicionais é a sensação de que o comando de uma comunidade, de um povo, de uma nação não pode ser feito, nem por um líder intransigente, nem por um indeciso ou omisso, mas por um verdadeiro líder que atenda as necessidades de seu povo e fiscaliza essas atividades. Por outro lado, inimigo é sempre inimigo, principalmente se ele for histórico, por isso nunca entendemos o conceito de democratização onde os pobres apenas contribuem com o voto ou a governabilidade, onde para conduzir o povo você precisa compartilhar com aqueles que sempre promoveram essa situação de entreguismo das riquezas e bens nacionais e que nunca precisaram compor, no caso, com o PT para governar; afinal o PT era o puro, o padrão, o impecável, mas parece que caiu em tentação, tal como Eva, e agora, o resultado é esse: a destruição de um projeto possível e de um sistema de governo que poderia ser mais social, mas equilibrado economicamente e mais inclusivo, principalmente com os indígenas. Mas para o índio, isso é apenas um processo, porque os ideais não vão morrer e seguiremos lutando por isso!
Afropress – Quais as tarefas do Comitê Intertribal que você preside?
Terena – O Comite Intertribal (ITC) é uma organização indigena política e de vanguarda, nascida em 1991 com lideranças que criaram o primeiro movimento indígena no Brasil, ainda no governo da ditadura. Após a Conferencia Mundial dos Povos Indígenas durante a RIO/92, o ITC foi a primeira organização a se tornar referencia no cenário internacional, principalmente na ONU. Atualmente o ITC está responsável pela organização dos Jogos dos Povos Indígenas, onde ocorre o Fórum Social Indígena e neste ano vai ser em Outubro, no Ceará, e pela Conferencia da Convenção da Diversidade Biológica que é internacional, que vai debater a proteção dos conhecimentos tradicionais e uso da biodiversidade, marcada para o ano que vem, em Curitiba, e pelo Plano de Ação e Declaração de Princípios sobre a inclusão indígena nos sistemas da Sociedade da Informação, também estabelecido pela ONU.

Redação Foto:Michelazzo