Brasília – Pelo menos 20 mil pessoas provenientes de todo o país começam a chegar esta madrugada em Brasília, no maior protesto da população negra, em 117 anos após a Abolição. É a Marcha Zumbi + 10 pela Cidadania e pela Vida, articulada por entidades negras para marcar 10 anos da primeira manifestação em 1.995.
A concentração começa às 9h em frente à Catedral Dom Bosco, na Esplanada dos Ministérios, e depois segue em passeata até a Praça dos Três Poderes, onde será entregue documento com reivindicações. O protesto deve durar até às 21h, quando o Grupo Olodum, da Bahia, sobe ao palco para uma apresentação.
Faltando menos de 24 horas para o início da Marcha, o Palácio do Planalto, ainda não havia respondido ao pedido de audiência feito formalmente há meses. Segundo Edson Cardoso, coordenador editorial do Jornal Irohin – da articulação nacional das entidades que promovem a Marcha -, na quarta-feira passada foi feita uma tentativa de audiência com o Presidente Lula, numa reunião com o ministro Luis Dulci, da qual participaram a ministra Matilde Ribeiro, da Seppir, Douglas Martins de Souza, Vice-Ministro e João Carlos Nogueira, da Subsecretaria das Ações Afirmativas.
Dulci disse que o Presidente não via problemas em receber a Marcha, uma vez que dialogava com o MST e com a CONTAG, entidades ligadas ao movimento dos trabalhadores sem terra, portanto, considerava natural o recebimento das lideranças das duas Marchas. Entretanto, a audiência não foi confirmada. “Ficamos quase a implorar sermos atendidos pelo Presidente da República”, disse Cardoso.
A Marcha do dia 22 é patrocinada pelo PT e dirigida por entidades como a CONEN, UNEGRO e sindicatos ligados à CUT vinculados à base de apoio ao Governo Lula.
Em toda a capital foram distribuídas milhares de panfletos e cartazes estão espalhados pela Esplanada. Durante a madrugada e antes do início da Marcha serão fincadas 300 cruzes nos gramados da Esplanada em homenagem aos jovens negros que vem sendo vítimas de chacinas e mortes violentas nos grandes centros urbanos. Em um banner gigantesco a frase: “O Brasil é um país que mata negros”.
Apesar das dificuldades com o Planalto, já está praticamente certa audiência com o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, com a Ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial das Mulheres e com o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Vantuir Abdalla.
Embora não se saiba com precisão quantos ônibus estão seguindo em caravana, já se sabe que, pelo menos 400 partem esta noite de vários Estados. De Goiânia, por exemplo, estão certos 22 ônibus; de Salvador, oito ônibus com ativistas do Olodum e do Ile Ayê, de Recife, quatro ônibus.
De S. Paulo, deverão seguir da capital pelo menos 30 ônibus, sem contar as caravanas que partem de cidades da Baixada Santista, ABC e do interior como Ribeirão Preto, com três ônibus, Araras e Franca.
Na tarde desta terça-feira, Edson Cardoso, sintetizava o clima existente em Brasília: “Quando agente faz as coisas sem muitos obstáculos, a tensão fica para o dia. Agora, quando agente enfrenta todos os obstáculos, como o caso desta Marcha, então é diferente. Estamos aliviados. A missão está cumprida e já nos sentimos vitoriosos”, afirmou.
Cardoso fez um paralelo em relação à situação vivida hoje nos subúrbios de Paris: “Há 15 anos dirigentes do SOS Racismo diziam que isso ia acontecer e ninguém deu ouvido. Temos um Ministro da justiça que não nos recebe. Não querem diálogo. Temo que estejamos assistindo as últimas tentativas de um diálogo institucional”, concluiu.

Da Redacao