Quando cheguei à Nova York, no começo dos anos 90, eu tinha pouco conhecimento do que ele representava para a comunidade afro-americana, em particular, e para a cultura norte-americana em geral.
O livro “The Autobiography of Malcolm X” (A Autobiografia de Malcolm X) foi o primeiro livro que eu comprei nos EUA, e também foi a minha introdução a uma das figuras mais fascinantes que apareceram neste país no século XX. Li esta fascinante biografia duas vezes. A primeira carregando junto comigo um dicionário de bolso, fazendo anotações no livro (um hábito que tenho até hoje), e traduzindo palavras até então desconhecidas.
A segunda para aprender o que ele representou para este país e a influência que exercia nos afro-americanos que viviam principalmente nos guetos das grandes cidades.
Fiquei tão impressionado com sua história que passei a me interessar por tudo que estava relacionado à sua vida e a dos mulçumanos afro-americanos. Quando o diretor Spike Lee lançou seu ótimo filme X, no final de 1992, eu estava lá no dia da estréia. Na época também usava um boné com um X estampado na frente.
Se você quiser realmente entender um pouco a historia dos afro-americanos neste país, este é um livro que deveria ler. O que mais me fascinou foi sua metamorfose, de trambiqueiro a líder carismático dos mulçumanos afro-americanos.
Malcolm X tinha a mesma preocupação que Martin Lutter King Jr., ou seja, fazer com que os EUA respeitassem os direitos civis de seus cidadãos afro-americanos. Entretanto, a maneira pela qual defendia sua posição era bem diferente da do líder pacifista. Ao contrario de Martin Luther King Jr., ele não acreditava na filosofia da não violência; tampouco acreditava que brancos e negros pudessem viver juntos. Também acreditava no direito dos negros usarem armas para auto-defesa contra as agressões dos brancos racistas norte-americanos.
Malcolm X perdeu seu pai assassinado por membros do grupo racista KKK e acompanhou o colapso mental de sua mãe que foi parar em uma instituição psiquiátrica. Ainda jovem foi morar com sua irmã mais velha, em Michigan (Detroit), e mais tarde foi alojar-se no Harlem (Nova York), onde começou sua notória carreira criminal até ser preso pela policia e passar dez anos na cadeia.
Ao sair da prisão, estava completamente diferente daquele Malcolm que cruzava as ruas do Harlem, com seu cabelo vermelho alisado fazendo de tudo – de cheirar cocaína à praticar roubos de mão armada. Este era um outro Malcolm, que agora se autodenominava “Brother” Malcolm.
Ele possuía uma mente brilhante. Durante seu período na penitenciária começou a ler tudo. Filosofia, Historia, Literatura, etc. O X que passou a usar como sobrenome representava a incógnita do seu passado. Como a letra X em termos matemáticos representa o desconhecido, Malcolm passou a usar o X para indicar que seu passado africano era desconhecido dentro da sociedade racista norte-americana.
Começou a usar seu conhecimento, junto com a retórica do nacionalismo dos mulçumanos negros para atrair adeptos à nova religião mulçumana. É verdade que, no começo, queria a total separação entre negros e brancos, sugerindo até um Estado separado para acomodar todos os afro-americanos dentro dos país. Mas, tudo isto nada mais era do que o reflexo de alguém que sempre foi tratado como um ser inferior, alguém que jamais foi aceito como igual pelos fundadores deste país.
Quando jovem, perguntado por sua professora na sala de aula o que gostaria de ser, ao responder advogado, sua professara afirmou que, para um negro, seria melhor um trabalho manual. Em outras palavras, Malcolm não teria intelecto para ser advogado. Durante o período escravocrata os afro-americanos eram considerados sómente 3/4 de um ser humano.
Com seu carisma Malcolm trouxe para o movimento milhares de pessoas. Passou a ser, praticamente, o representante oficial dos mulçumanos negros no país. Era muito inteligente para ficar preso à uma ideologia. Ao perceber que esta ideologia não seria o suficiente para resolver a situação, começou a questioná-la. Não demorou muito para ficar desiludido com o líder do Movimento, o senhor Elija Mohamed, que havia engravidado várias de suas secretárias enquanto pregava abstinência e fidelidade conjugal.
Depois de desligar-se do Movimento, Malcolm X viajou para Meca para a peregrinarão maior de um mulçumano. Também visitou vários países da Mãe-Pátria. Ao regressar, mudou mais uma vez sua posição em relação aos EUA. A situação dos negros dentro do país não era somente um problema de direitos civis – era um caso de direitos humanos, e somente com a ajuda de um órgão internacional seria possível mostrar ao mundo o tratamento ao qual estavam relegados milhões de cidadãos afro-americanos.
Malcolm X tinha grandes idéias. Sua intenção era mostrar ao mundo através da ONU o tratamento que os afro-americanos sofriam dentro do país. Infelizmente, foi assassinado antes de levar sua idéia adiante.
Li outro dia que mais de 900 livros já foram escritos sobre este grande líder. No último dia 19 de maio, ele completaria 81 anos de idade. Foi assassinado em 21 de Fevereiro de 1965, no Harlem. Sua passagem pela Terra foi curta, mas suas idéias ainda hoje, fazem a cabeça de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Infelizmente, no Brasil, ainda sabemos pouquíssimo a respeito deste grande líder dos direitos humanos assassinado há mais de 40 anos aqui em Nova York.
“The Autobiography of Malcolm X – Alex Hailey.
“The Life and Death of Malcolm X – Peter Goldman.
“The Malcolm X Project ate Columbia University – www.columbia.edu/cu/ccbh/mxp.
Vida nos EUA
Salários, expectativa de vida, crime, nível educacional, igualdade racial e entre os sexos, bens de consumo, etc. para ficarmos somente em alguns aspectos dos indicadores socio-econômicos nos EUA. A vida para o norte-americano médio nunca esteve melhor se levarmos em conta estes indicadores.
Entretanto, o partido Democrata que está fora da Casa Branca desde 2001, não consegue mostrar aos seus eleitores que o país está a caminho do precipício. Mesmo com a desastrada política externa do atual presidente George W. Bush.
Apesar da guerra do Iraque, o aumento do déficit governamental, a alta do preço do petróleo, o debate sobre os imigrantes ilegais, e a baixa popularidade dos EUA no mundo, as cidades norte-americanas estão mais vibrantes do que nunca. Mais ou menos 33% dos jovens terminam o curso Universitário. A diferença de salários entre homens e mulheres diminuiu, o índice de divórcios também. A expectativa de vida do norte-americano é de 75 anos. O problema racial, que sempre foi o tendão de Aquiles neste país, está sendo enfrentado com mais oportunidades de ascenção social aos afro-americanos e também para as outras minorias.
Pintar um dilúvio para o país, certamente fará com que você venda mais livros, ou atraia mais visitantes para seu blog, entretanto, não fará com que os norte-americanos saiam correndo de suas casas para as urnas para mudar a atual política do país ou o sistema econômico vigente.
Película
Denzel Washington está de volta às telas. Depois de uma pequena passagem pela Broadway, onde interpretou Brutus, amigo do imperador Julio César, ele e o diretor Tony Scott estão juntos novamente no filme “Deja Vu”.
O filme conta a história de um agente da Polícia Federal envolvido em um projeto ultra-secreto do governo norte-americano que pode fazer com que as pessoas viagem no tempo. Neste caso mais especifico de volta ao passado.
Usando este mecanismo, ele é mandado de volta ao passado para tentar impedir um ataque terrorista a uma balsa na cidade de New Orleans. Vemos o ataque terrorista nas primeiras cenas do filme. O filme conta ainda com a presença dos atores Val Kilmer, Jim Cavaziel e a linda Paula Patton. A critica em Nova York, não muito severa com este filme, a maioria dos jornais o achou um pouco confuso. Entretanto, a presença deste grande ator afro-americano, por si só, já justifica o preço do ingresso.

Edson Cadette