S. Paulo – “Infelizmente a Igreja Católica é excludente e tem culpa na invasão que aconteceu em nosso país”. A declaração de Marcos Luidson de Araújo, cacique do povo Xukuru, é o grito dos grupos indígenas à visita do Papa Bento XVI ao Brasil.
Para o cacique, parte da responsabilidade pela descaracterização das comunidades indígenas recai sobre o colo do Vaticano. “A igreja tem uma grande culpa nesse processo, contribuiu muito para a perda de identidade dos povos indígenas.”
Marcos destaca o processo de sobrevivência da cultura Xukuru, realizado em meio aos preconceitos e perseguições dos órgãos oficiais de Pernambuco. “Para nosso povo praticar o ritual tinha que sair de noite, no escuro, para não ser preso. Negar nossa identidade era uma forma de sobreviver.”
Comenta ainda que, mesmo tendo sua cultura reprimida, a comunidade encontrou espaço para o sincretismo com o catolicismo. “Nosso povo convive com as duas religiões. Nas cerimônias, os cantos são feitos no nosso idioma.” O próprio cacique teve seu casamento celebrado numa igreja, com cantos tradicionais dos Xukuru.
Durante a passagem do Papa por São Paulo, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) encaminhou uma carta ao sumo pontífice. Nela são relatados os assassinatos das lideranças indígenas, a questão da demarcação de terras e a preocupação com os impactos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nos territórios. O documento pede ao papa solidariedade às questões indígenas.
Localizado no município de Pesqueira, interior de Pernambuco, o povo Xukuru conta com uma população estimada de 7.500 pessoas, distribuídas em 23 aldeias numa área de 2 mil hectares de terra.
Apesar das dificuldades, a comunidade ainda preserva parte de suas tradições e costumes. Os Xukuru vivem também um processo de reafirmação de identidade, iniciado na década de oitenta. Esse processo foi resultado da união na luta pela terra, empreendida pelo então cacique Xicão Xukuru, pai de Marcos, que foi assassinado por fazendeiros em 1998.

Da Redacao