Brasília – “Foi lamentável a reação intempestiva e desnecessária do companheiro do meu partido. Fiquei muito chateado e muito triste. Estou há 21 anos no Congresso e nunca vi nada semelhante a isso”. A afirmação foi feita pelo senador Paulo Paim (PT-RS), a respeito da exibição de autoritarismo e truculência do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, ao receber os manifestantes do Fórum SP da Igualdade Racial para a entrega das 100 mil assinaturas.
Paim chegou no final da discussão, mas teve tempo de presenciar uma parte. “Eu cheguei no momento em que ele (Chinaglia) estava mandando um dos advogados calar a boca e achei constrangedor”, disse Paim, que sugeriu a retirada das lideranças levando os pacotes de assinaturas que, mais tarde seriam entregues ao presidente do Senado, Renan Calheiros. A cena chocou a todos que estavam na ante-sala do gabinete de Chinaglia.
O advogado Sinvaldo Firmo, do Instituto do Negro Padre Batista, pediu a palavra para justificar que as palavras de ordem “Estatuto, já!” “Cotas, já!”, não representavam nenhum desrespeito nem ao presidente, nem à Casa. “Cale a boca”, afirmou Chinaglia.
Sinvaldo saiu abalado e alguns ativistas experientes como Thiago Thobias e Heber Fagundes, da Rede Educafro, não escondiam a indignação e a revolta. Contiveram as lágrimas e seguiram para a Comissão de Direitos humanos.
Diante da repercussão do episódio, Chinaglia tentou se justificar no final da tarde. “Eu avisei que não tinha tempo, mas mesmo assim os recebi, tendo em vista a dimensão que representa a luta por igualdade no Brasil”, afirmou aos jornalistas. Na semana passada, ele já havia reagido mal e se desentendido com lideranças do movimento dos quilombolas que estiveram em Brasília para reivindicar direitos sobre as terras que ocupam há mais de um século.
O jornalista Dojival Vieira, da Coordenação do Movimento Brasil Afirmativo, ao falar na Comissão de Direitos Humanos, foi enfático: “O senhor Arlindo Chinaglia receberá a resposta do povo negro brasileiro. Ele não sabe que o nosso povo não cala a boca e que não se diz “cala a boca” a ninguém, muito menos aqueles que sustentaram e sustentam esse país”, afirmou.
Os deputados Janete Pietá (PT-SP), coordenadora do Núcleo de Parlamentares Negros do PT (Nupan) e Carlos Santana (PT-RJ), presidente da Frente Parlamentar da Igualdade Racial, não esconderam a perplexidade diante da truculência do presidente da Câmara. “Nunca vivenciei um momento destes”, disse Pietá, contendo as lágrimas.
O único senador presente a sessão da Comissão de Direitos Humanos, além de Paim, o senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), lamentou o episódio. “Considero isso um absurdo. Quando soube, perguntei: foi o segurança? Não. Foi o próprio presidente, me responderam. Isso é muito mais grave ainda. Por isso estou do lado da luta de vocês”, disse Buarque.
Veja o vídeo:

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Da Redacao