Barretos/SP – Camila Rocha, uma moça de 24 anos, professora de Educação Física e de dança, nascida numa família humilde de Barretos , criada pela mãe e que já morou em favela, tornou-se a primeira negra a se eleger Rainha da 58ª Festa do Peão de Barretos – a maior Festa de rodeio da América Latina – que acontece desta quinta-feira, dia 15/08, até o dia 25 de agosto.

“Prá mim está sendo tudo maravilhoso, um imenso prazer também de estar realizando um sonho. Carrego uma responsabilidade muito grande em representar minha cidade em todo o Brasil, levando nossa cultura sertaneja, porém, também minha raça e quebrando um paradigma de 58 anos de Festa”, afirmou Camila.

Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, a Rainha da Festa do Peão, que ganhou prêmio de R$ 2 mil em dinheiro e uma bolsa de estudos da Faculdade de Barretos, falou da sua estória de vida e transmitiu uma mensagem para os jovens negros que, a exemplo dela, enfrentam as dificuldades geradas pelo racismo e pela pobreza.

Embora a organização do concurso registre que a primeira negra foi Drielly Nascimento, eleita em 2006, membros da comissão organizadora da Festa admitem que Camila não é parda como sua antecessora, “mas, negra” e, portanto, é a primeira como ela própria assume.

“Tenho a dizer que quando se tem um sonho, devemos lutar, sermos fortes para que possamos vencer todas as barreiras e obstáculos. Não há vitória maior, sem sacrifícios. Temos que ter  determinação. Sonhos devemos transformá-los em objetivos e realizá-los, independente e apesar do racismo e das dificuldades. Somos seres humanos e somos movidos por sonhos. Lute, acredite, sonhe, conquiste, realize e faça a diferença”, afirmou.

Leia, na íntegra, a entrevista com a Rainha negra da Festa do Peão de Barretos.

Afropress – Como você se sente sendo a primeira negra eleita Rainha da 58ª Festa do Peão de Barretos?

Camila Rocha – Prá mim esta sendo tudo maravilhoso. É um imenso prazer, além também de estar realizando um sonho. Carrego uma responsabilidade muito grande em representar minha cidade em todo Brasil levando nossa cultura sertaneja, porém, também minha raça e quebrando um paradigma de 58 anos de Festa. Trago em mim como intuito a valorização da minha raça.

Afropress – O concurso é tradicionalmente vencido por moças brancas ou loiras. Quais as dificuldades que você enfrentou e quem a estimulou a participar?

CR – Na verdade, loiras. Não tive nenhuma dificuldade embora o concurso tendo sido realizado por pré-seletivas, em que 21 moças seriam selecionadas, 10 para participarem do concurso, fui a única negra até mesmo nessas pré-seleções. O único receio que tive, pode ser até mesmo por toda a estória, é que não se tivesse elegido uma rainha negra, porque sempre me achei capaz de quebrar esse paradigma. Mas entrei de igual pra igual, com o intuito de fazer a diferença pois dei o meu melhor, obtendo  a vitória. Tive muito apoio de meus familiares e amigos que são a base de tudo em minha vida.

Afropress – Qual é a sua estória desde menina, sua família, que dificuldades enfrentou e enfrenta?

CR – Bom, nasci em Barretos fui moradora de favela, hoje moro em minha casa (Cohab), mais própria. Tenho mais cinco irmãos, moro somente com um. Toda vida fui criada somente por minha mãe. Sou de família humilde, sempre estudei em escolas municipais. Fui também aluna de projetos sociais. Por meio deles, aos 11 anos conheci o Atletismo, tendo oportunidade de conhecer várias cidades para disputar competições. Aos 18 anos parei de treinar devido ao trabalho de estagiária na rede da educação.

Comecei a Faculdade de Educação Física, hoje sou formada e administro aulas de dança em projetos sociais. Minha família sempre foi bem unida, um ajuda o outro, mesmo com as dificuldades. Tive dificuldade para me formar. Minha mãe me ajudava como podia e, por meio do Atletismo recebia uma ajuda particular pra estudar, não pela Prefeitura. Tinha também uma ajuda mensal para o ônibus. Enfim, foi uma luta. Mas, graças a Deus, ao meu esforço e a minha mãe sou quem sou vencendo lutas e barreiras. Hoje posso dizer que tenho ainda dificuldades, mas nada se compara com o que eu já passei. Posso dizer que venci, porem tenho muito mais que conquistar.

Afropress – A cultura racista e discriminatória no Brasil ainda representa uma dificuldade para jovens negros em todos os campos de atividade. Como Rainha da Festa do Peão, que é conhecida internacionalmente, o que tem a dizer para os jovens negros, homens e mulheres que se defrontam com as barreiras do racismo no seu dia a dia?

CR – Tenho a dizer que quando se tem um sonho, devemos lutar sermos fortes para que possamos vencer todas as barreiras e obstáculos. Não há vitória maior, sem sacrifícios. Temos que ter  determinação. Sonhos devemos transformá-los em objetivos e realizá-los, independente de racismo etc. Somos seres humanos, movidos por sonhos. Lute, acredite, sonhe, conquiste, realize e faça a diferença.

Afropress – Como Rainha da Festa quais serão suas atividades e compromissos e ter ganhado o concurso o que mudou na sua vida cotidiana?

CR – Desde o concurso já tive vários compromissos – TV, entrevistas etc. Na  próxima quinta-feira inicia-se a Festa do Peão. Já tenho  mais compromissos, inclusive, com a TV Globo. Depois da Festa os compromissos continuam para a divulgação para o próximo ano. Viajarei para todo o Brasil. Tive, sim, uma mudança em meu cotidiano. Eu dava aulas de dança de manhã e à tarde, estou fazendo curso de dança também, e tive que pedir liberação para ficar disponível para os compromissos. Está sendo tudo de bom, mas sempre tive uma vida corrida, só mudou um pouquinho, mas, é maravilhoso, principalmente, o reconhecimento das pessoas.

Afropress – Quem são os seus maiores ídolos no Brasil e no mundo? E Por que?

CR – Primeiramente meu Ídolo é Deus. No Brasil, minha mãe pois com toda dificuldade me fez me tornar o que hoje eu sou, mesmo com um país com drogas, prostituição, violência. No mundo, admiro Obama [Barack Obama, presidente dos EUA] – negro, humilde, que passou com tantas coisas, discriminações, lutas, barreiras e obstáculos e hoje governa um país. Está aí uma lição de vida.

Afropress – Qual o tipo de música que prefere, além da música sertaneja, é claro? Para que time torce?

CR – Bom, por ser barretense cresci com a tradição sertaneja, que prezo e gosto muito. E o samba está no sangue – fui rainha do carnaval em 2007, rainha de bateria há alguns anos pelo Aruanda Brasil. Sou sãopaulina e também adoro e torço pelo time de minha cidade – o Barretos Esporte Clube (B.E.C), do qual sou a atual musa.

Afropress – Pretende seguir carreira artística?

CR – Sim e estarei disposta a aproveitar todas as oportunidades e propostas que surgirem.

Afropress –  Qual é a história da sua família?

CR – Minha família é bastante humilde e tem antecedentes bastante humildes. Meu avô, pai de minha mãe, vem de Minas. Minha mãe, desde pequena morou em várias cidades, e viveu em várias regiões em busca de trabalho, moradia, uma vida melhor. Já tive tios mortos por drogas etc. Meus avós sempre foram  trabalhadores rurais, moravam no campo. Muito humildes, mas gente muito honesta, tios, tias, criaram suas famílias. Enfim, hoje tenho e sempre tive uma família, que luta, uma família guerreira.

Afropress – Como vivenciou na escola as dificuldades impostas pelo racismo?

CR – Bom sempre estudei em escolas públicas, o número de pessoas negras era grande, então não tinha aquela certa cota, acho que era de igual pra igual. Dificuldades mesmo, era somente em querer uma roupa nova, materiais caros, mais devido a situação de minha mãe, nada me impediu de estudar. Porém, na faculdade até me formar fui a única negra de minha sala que concluiu o curso.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

CR – Eu que Agradeço pelo o carinho e atenção e espero poder ajudar, sempre que precisar. Pode contar comigo obrigada.

Crédito das fotos internas: Divulgação – André Monteiro e arquivo pessoal

 

Da Redação