Nova York – Paulistano da zona leste, morando há 18 anos nos EUA, e portador de dupla cidadania, o ex-agente de viagens Edson Cadette, 47 anos, (foto) é um dos mais entusiastas ativistas da campanha do senador negro Barack Obama, que disputa a indicação do Partido Democrata às eleições americanas de 04 de novembro. Ele não é o único brasileiro na campanha, mas é um dos mais ativos dos milhares ativistas que o senador por Illinois tem mobilizado por todo o país.
No último dia 22 de abril – dia das primárias da Pensilvânia – Cadette, a bordo de um ônibus alugado pelo Sindicato, o 32BJ, que reúne empregados em edifícios , ascensoristas e porteiros, e cuja base abrange Nova York, New Jersey, Washington e Connecticut – viajou duas horas e meia para pedir votos para Obama, nos subúrbios da Philadélfia -, onde moram, especialmente negros e latinos.
Juntamente com outros quarenta e um ativistas do Sindicato, em que exerce a função de assistente no Departamento de Compras, e munido de uma lista com os nomes dos eleitores inscritos no Partido, ele percorreu cerca de 300 casas pedindo votos. Obama acabou derrotado nas primárias do Estado pela ex-primeira dama e também senadora Hillary Clinton por uma diferença de 10 pontos, o que não alterou a sua situação de líder em número de delegados. O senador negro tem 1.491 delegados contra 1.332 de Hillary.
“Foi minha primeira experiência participando de uma campanha nos EUA. Estou otimista”, afirma Cadette que, há dois anos é colunista de Afropress.
A derrota na Pensilvânia não abalou a confiança e o otimismo de Cadette, que acredita numa virada nas primárias que acontecem nesta terça-feira (06/05), na Carolina do Norte e em Indiana.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida de Nova York, por telefone, para o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.
Afropress – Como foi sua experiência como ativista da campanha de Obama?
Edson Cadette – Foi minha primeira experiência em campanha. Saímos às 8h30 da manhã e chegamos às 10h30, na Philadélfia. Em Germany Town (Cidade alemã), nos juntamos a uma caravana de mais de 10 ônibus, vindos de Washington, Mississippi e New Jersey. Lá foi feita a distribuição dos grupos para percorrer várias partes da cidade. O nosso grupo ficou encarregado de cobrir o o norte da Philadélfia, uma área tipicamente de minorias, latinos e negros, especialmente. Eu era o único brasileiro na caravana.
Afropress – Qual era a reação das pessoas que você abordou?
Cadette – Muitas pessoas sabiam das primárias. A grande maioria estava com Obama. Trabalhamos das 11h30 da manhã, até às 19h, com pequeno intervalo para um lanche. O grupo tinha uma lista com os nomes das pessoas. Visitamos mais de 300 casas.
Afropress – Você já tem direito à voto?
Cadette – Sim, claro. Tenho dupla cidadania. Posso votar e estou registrado no Partido Democrata, em Nova York.
Afropress – Como você está vendo a ascenção do senador Obama e as chances de se tornar o primeiro negro a Presidência dos EUA?
Cadette – Eu sou um apoiador do Obama. O admiro muito, desde que lançou seu nome como candidato. Prá mim foi muito excitante está participando desse momento histórico. Há 10 anos ninguém diria que um candidato negro tivesse condições de chegar à Casa Branca. Ele tem grandes chances de se tornar o primeiro negro a presidir os EUA. Há, porém, obstáculos grandes que precisam ser ultrapassados.
Afropress – Você se refere à polêmica provocada pelo pastor Jeremiah Wright?
Cadette – Sim, de fato, isso pode atrapalhar muito. Ele está com uma batata quente na mão e está tendo dificuldades para conter o estrago feito pelo pastor. Os setores mais conservadores, a mídia conservadora está adorando isso. Aqui está se explorando muito as declarações do pastor, baseados na coisa do “diz-me com quem andas, e eu te direi quem és”. É o que chamamos aqui de “guilty by association”.
Afropress – Você acha que Obama conseguirá conter os estragos provocados pela repercussão das declarações do pastor na mídia?
Cadette – Está bem difícil, mas ele está fazendo um grande esforço para minimizar os estragos. Se conseguir ficará mais forte. Esse pastor representa uma parte das pessoas de mais de 60 anos, que presenciaram o racismo mais forte. Está numa bolha do tempo. Essas pessoas usam uma retórica racial para se auto-beneficiarem como se os EUA não tivessem evoluído nesse tempo.
Afropress – Isso explica o certo distanciamento de Obama de lideranças como Jesse Jackson e All Sharpton?
Cadette – Nenhum dos dois pastores estão apoiando Obama explicitamente. Eles estão se beneficiando de uma retórica racial. É óbvio, que é há problemas raciais, mas não se pode ignorar que houve avanços e Obama representa o novo.
Afropress – O que significará para os negros de todo o mundo a vitória de Obama, como candidato do Partido Democrata e nas eleições de novembro?
Cadette – Eu vejo uma brisa de ar fresco para o mundo. Depois de oito anos de Bush, a candidatura de Obama é uma coisa nova que o país quer. É uma inspiração para qualquer afrodescendente no mundo todo.
Afropress – E para os negros brasileiros?
Cadette – Estou há 18 anos fora do Brasil para onde tenho voltado em férias. Fiquei 9 anos sem voltar e a última vez foi em 2.005, mas penso que no Brasil, é preciso avançar muito. Ainda estamos muito presos a uma mentalidade de 1.888. Não se discute a questão racial. Não ouvi falar de nenhuma liderança como Obama surgida no Brasil. Para os negros do Brasil a vitória de Obama será muito importante.
Afropress – Você está confiante em relação às chances de Obama nas primárias de Indiana e Carolina que acontecem nesta terça?
Cadette – Não nos abalamos com a derrota na Pensilvânia. A Hillary não teve uma vitória maciça para poder reverter a dianteira de Obama. Acho mais que o fato de ter ganhado por apenas 10 pontos percentuais acabou não tendo o resultado que esperava, porque permanecemos na frente em número de delegados. Vamos vencer.

Da Redacao