Mais uma vez, os números confirmam o que se vê todos os dias em nossas cidades brasileiras. Os 40% declarados na pesquisa são os mesmos 40% que residem em imóveis alugados, ou sublocados, se deslocam em coletivos urbanos lotados e sucateados e tem pouco acesso a políticas sociais, pela desinformação.
Pois, os mesmos 40% são obrigados a fazer uma escolha: ou compram um jornal ou um litro de leite. Isto mesmo, porque até mesmo o acesso à informação, o qual foi sempre prometido ser democratizado com pontos públicos para acesso a Internet banda larga não foram cumpridos e não estão instalados nas periferias das grandes cidades.
Conto este fato porque ouvi esta promessa em muitas das campanhas políticas que superlotam o rádio e a televisão, nos importunando com 50 minutos de falas vazias e nada objetivas.
Mais um pleito está chegando ao final. Mais uma eleição se passou e não vimos nenhum candidato a cargo majoritário, seja para presidente, seja para governador, falar em ações e iniciativas para a população negra.
Se não falaram para os negros, para os pardos então, nem se fala. Índios, então. Estes só são lembrados, como diz a letra de uma antiga música da hoje Baby do Brasil, no dia “19 de abril”. A continuação das bolsas e programas sociais são agora inclusivas a toda a população em vulnerabilidade. Aos negros, em especial, temos um Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo Senado. Um documento que vai de mão contrária a todos os anseios do Movimento Social Negro.
Causas que para nos eram fundamentais, como a obrigatoriedade da implantação do sistema de cotas para o acesso de negros no ensino superior, por exemplo, foram para o ralo. E agora, depois do período eleitoral, teremos sim que recomeçar a batalha para entrarem adendos e mais projetos dentro do Estatuto que nos garantam, de novo, o cumprimento de políticas de ação afirmativa, as quais o Brasil se comprometeu na Conferência de Durban, África do Sul, em 2001.
O maior país da América Latina se comprometeu em eliminar as desigualdades e erradicar, ou melhor, acabar com o racismo entre brancos e negros: muitas coisas ainda continuam no frio tratado assinado e ratificado pelo país. Tá na hora de se rever o documento e colocar ali algumas cláusulas em prática.
Falando mais especificamente do estado onde vivo, o Rio Grande do Sul, conhecido por suas históricas contribuições ao Movimento Social Negro – vale citar em 1973 a formação do Grupo Palmares, a partir da iniciativa do já falecido escritor e poeta Oliveira Silveira – a campanha ao Palácio Piratini e a Assembleia Legislativa está chegando a reta final.
Aqui, ficamos também esperando algum tipo de pronunciamento dos candidatos – falo em pronunciamento público e não em grupos fechados – direcionados a população negra. De acordo com institutos de pesquisa, somos mais de 1,5 milhão de negros declarados que habitam o estado mais meridional do Sul do Brasil.
Esta população, a qual hoje é predominantemente urbana, pois se encontra em maioria nas maiores cidades gaúchas esperam por políticas públicas que garantam o acesso a educação, a moradia e a saúde. Esperam por ver as suas especificidades atendidas. Os remanescentes dos quilombos gaúchos aguardam pelo reconhecimento de suas terras e pela construção de iniciativas que garantam o fomento, a produção e a distribuição de seus produtos.
A campanha eleitoral está chegando a reta final. Barracos, denúncias, vimos novamente as velhas estratégias de desmoralização mútua previamente divulgadas nos horários eleitorais. Denúncias a parte, fica a pergunta: e nós, negros e negras espalhados por este país? O que você, candidato a presidente e a governador, falou diretamente a nós? Talvez não tenha dado tempo… talvez não tenha tido oportunidade para olhar para este importante setor da população brasileira. Quem sabe sejamos lembrados pelos futuros gestores vitoriosos nas eleições do próximo três de outubro, quem sabe…
O título original do artigo é “Candidato… você falou conosco durante a campanha?”

Oscar Henrique Cardoso