O Babalaô venezuelano do culto ioruba Pablo Antonio Acosta, presidente da Fundação Internacional Ile Ife (FUNDAILEIFE), com sede em Caracas, entidade registrada junto ao Ministério de Relações Interiores e Justiça, que trata da liberdade de culto, e sua companheira, a cientista política, e também iniciada na cultura ioruba, Marjorie, estão em visita ao Brasil para a troca de experiências com religiosos de matriz africana e entidades negras brasileiras.
Acosta e Marjorie participaram durante toda a semana de encontros e reuniões para conhecer os aspectos do Candomblé como se pratica no Brasil. Neste sábado (07/06), seguem para o Rio de Janeiro, e em seguida retornam a Caracas. A próxima escala da viagem será o Haiti, onde terão encontros com autoridades ligadas à religiosidade de matriz africana. O objetivo é conhecer a prática do Candomblé e da cultura ioruba, bem como troca de experiências sobre o tema na América do Sul e Caribe, que sirvam como um marco para o reconhecimento da prática religiosa do Candomblé por organismos internacionais como a Unesco.
No intervalo das reuniões e encontros, acompanhados de João Bosco Coelho, da Coordenação do Movimento Brasil Afirmativo, eles estiveram com o Editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, a quem foram indicados pelo Consulado da República Bolivariana da Venezuela, em S. Paulo. Veja a entrevista.
Afropress – Qual o objetivo da viagem que fazem ao Brasil?
Pablo Acosta – Em primeiro lugar como presidente da Fundação Internacional ILE IFE, que se dedica a divulgação da cultura africana, tenho feito um giro por diferentes países, a começar pela África. Agora que estamos no Brasil queremos conhecer a cultura milenar de raízes africanas, fazer contatos com líderes e autoridades das religiões de matriz africana. Depois , possivelmente vamos à Africa para um maior conhecimento da cultura ioruba, onde sou iniciado como Babalaô. O que pretendemos, eu e minha companheira, a a troca de experiências sobre as práticas dessas crenças. Depois de conhecer a África queremos estabelecer as relações e os vínculos entre o que é religião e o que é cultura de matriz africana em nosso continente e no Caribe.
Afropress – Estão previstos encontros com autoridades do candomblé e outros líderes religiosos?
Pablo – Sim, queremos também fazer um intercâmbio com personalidades do candomblé e quimbanda e de todas as práticas que são cultivadas em nosso país, em especial a cultura ioruba.
Afropress – O candomblé é praticado na Venezuela?
Pablo – O candomblé como é praticado no Brasil não é conhecido em nosso país. Isso nos tem preocupado do ponto de vista da cultura. Por isso pedimos a Chancelaria que nos fizesse essa ponte com o Brasil. A finalidade é conhecer sobre o candomblé e fazer um intercambâmbio entre nosso país e o Brasil. É um intercâmbio para dar a conhecer mais desse tema em nosso país, onde estão também muito arraigadas as práticas religiosas afrodescendentes.
Afropress – Que tipos de práticas religiosas afrodescendentes se pratica na Venezuela?
Pablo – A Santería que vem de Cuba, e por isso aproveitamos a visita ao Brasil para posteriormente visitar o Haiti, para a troca de experiências. Há diferenças entre a prática da Santería em Cuba e na Venezuela. Está arraigada a prática da Santería na Venezuela. Nossa proposta, junto as autoridades do nosso país, é que se legisle sobre esse tema.
Temos liberdade de culto, mas também temos problemas ecológicos e a disseminação da prática por pessoas inescrupulosos que usam a liberdade de culto para fazer comércio, que tem nos criado muitos problemas à nível nacional. Por meio da Fundação Internacional que presido temos procurado criar consciência. Por isso temos a necessidade de aprofundar a troca de experiências nesse intercâmbio com o Brasil, que pode nos apoiar muito neste caso.
Afropress – Quais os problemas mais comuns que enfrentam quando se referem a prática do culto por pessoas inescrupulosas?
Pablo – Temos tido problemas com o chamado mercantilismo negro da fé, ou mercado negro da fé. Na Venezuela a Santería que se conhece vem diretamente de Cuba. Temos tido problemas com pessoas que não conhecem as verdadeiras raízes das nossas crenças e praticam abusos, como, por exemplo, a profanação de tumbas. É horrível o que está acontecendo com a proliferação de elementos inescrupulosos que usam a boa fé e a ignorância das pessoas para tirar proveito pessoal de suas crernças.
Afropress – Quando o senhor se iniciou no Candomblé ou na Santería e passou a se interessar pela cultura ioruba?
Pablo – Fui iniciado na Santería em Havana. Em visita à África me dei conta das diferenças existentes entre a Santeria que se pratica lá e as práticas milenares iorubas.
Afropress – Após a visita ao Brasil, o que pretendem fazer com as experiências com as quais tomarão contato?
Pablo – O que queremos é que organismos internacionais como a Unesco se pronunciem a respeito dessas práticas.
Marjorie – A tradição africana é mais antiga do mundo, é a cultura que vem das origens do Planeta. Entretanto, não há nenhum organismo que até agora tenha buscado estabelecer critérios sobre as práticas, sobre o que é e o que não é, sobre a linha tênue que separa cultura e religião. Por isso queremos que a Unesco tome conhecimento sobre o que acontece em nosso país. O Governo tem interesse em legislar sobre esse tema e o Brasil pode ser um país de apoio sobre as práticas em todo o continente.
Afropress – Vocês tem consciência de que se trata de um assunto muito delicado, imagino…?
Pablo – Sabemos que estamos mexendo em um ninho de vespas, mas é necessário que se faça algo.

Babalaô Pablo Acosta, em entrevista ao Editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira