Neste período, desprovidos de armas e estratégias para fugir da condição involuntária e indigna, os africanos aprisionados nas “senzalas” adaptaram a dança e a transformaram em luta.
Este expediente serviu também para dissimular-lhes o propósito do treinamento. Estando com outros contendores ao redor e ainda outros tocando tambores ou batendo palmas, entravam, de dois a dois, numa circunferência improvisada ao chão, para delimitar o espaço, e treinavam. As regras do treinamento era bastante simples, aquele eu caísse ou pisasse fora da “roda” seria o perdedor.
Esta primeira experiência leva o nome até hoje de “capoeira de Angola”, devida a proveniência do ritual que lhe deu origem. A “dissimulação” se dava por conta de que os seus opressores (brancos) e seus feitores (mulatos) imaginavam que estes estavam apenas dançando, e no dia aprazado iniciava-se um motim que tinha como objetivo a fuga.
No desenrolar desta, como não tinham armas, e seus perseguidores seguem-nos a cavalo, então, estes usavam de suas destrezas para se desvencilhar de seus inimigos.
O nome “capoeira” foi adicionado à prática, segundo a lenda, dado ao fato de que estes se esconderem por detrás de moitas, no estilo guerrilha, e pegavam seus perseguidores, que como disse portavam armas de fogo e facões, dominando-os e matando.
Após a “abolição da escravatura”, já na ditadura de Getúlio Vargas, chamada de “Estado Novo”, este que além de demagogo se dizia também populista. E a capoeira foi reconhecida como “arte popular brasileira” – Getúlio se dizia fomentador destas atividades.
Entretanto, assim como os brancos não nos dão nada de graça (isso desde há 2.500 anos), ele impôs três (3) condições: primeira, a de que a capoeira só poderia ser praticada em “ambiente fechado” – pura desfaçatez, imagine, o negro saído a pouco do cativeiro e lançados à indigência, sem indenização ou pecúlio… Como poderia se estabelecer comercialmente? Não Pode.
E continua até hoje jogando em vias-públicas e clandestinamente. Aí vem o branco – que aprendeu também “só para escrever livros” -, se forma, e com financiamento e crédito abre as suas próprias “academias…”.
E o negro, brasileiro, criador da arte, nem se toca… E nossas culturas vão sendo espoliadas e exploradas.
A partir deste momento um outro artifício começa a ser engendrado: o de que capoeira não é mais luta, segundo eles, “já não há mais motivos ou necessidade de lutar, é que vocês já estão libertos!”, nos dizem. É que, neste instante já estava sendo também engendrada, pelo mesmo ditador, a idéia de “democracia racial”, baseada na “obra” de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, que havia sido lançada décadas atrás.
Deste azar, assim foi criada a idéia de que “nós já não precisávamos mais lutar”, pois tudo, a integração social, com o tempo seria resolvida. E assim o branco ficou com tudo. Com a deles e a nossa cultura… E inclusive as nossas mulheres, que as prostituiu… Ou somente, com aquelas que deveriam ser nossas. Por fim, como diz um amigo meu, “de grão em grão a galinha teve congestão”. E eles se ainda não a tiveram, a terão muito breve mesmo!
Durante os 370 anos de cativeiro o negro brasileiro perdeu o senso de poder. Mas não foi somente um surto de amnésia não. Durante o século XIX, também chamado de o “século das revoltas” aqui no Brasil, que pautou pelo desejo de separatismo generalizado.
E, todas as revoltas, mormente as negras, findaram por banho de sangue. Daí o “terror e covardia negra” a rebeldias. O “conselho” de conformação para com a situação foi passado de pais para os filhos, nesses últimos 122 anos, que se diz de “liberdade”. Mas se alguém se esquecer disso… Bem, a polícia o lembrará.
Aliás, é para isso mesmo que esta é treinada. E exclusivamente. E desse azar a capoeira deixou de ser a nossa, única, defesa. “Capoeira não foi criada para lutar contra a polícia”, é o que dizem os mestres contemporâneos.
Estes até podem ser excepcionais capoeiristas – como eles gostam de ser chamados, pois para os capoeiras, eles são apenas dançarinos, por isso que a chamam de “dança”, e em suas artes sejam ser excepcionais… Mas em consciência no convívio social e político são meramente uns bunda-moles.
O negro brasileiro, atualmente, se diz “consciente”. Criaram – ou criaram para ele, como de costume – o conceito de “consciência negra”, sem ao menos se preocupar em desvendar, na verdade, o que vem a ser “consciência”, é piegas. De princípio, consciência é um sentimento, porquanto algo abstrato, então a pergunta de: como que ela poderá ter cor?
E segundo o Dicionário, trocando em miúdos, para tornar mais fácil o entendimento: “consciência é um profundo conhecimento de si próprio, e por extensão, do mundo que está a sua volta”. E se o negro brasileiro é consciente eu sou ariano. Vejam meus olhos azuis! Chega a ser hilário. Não obstante, eu não estou me reportando aos negros ditos “comuns”, não.
Estes são vítimas desse processo de alienação reinante, pois esta foi deliberadamente imposta, e eles impedidos e impelidos a não freqüentar escolas. Estou me dirigindo aos chamados “negros letrados”. Àqueles que se vangloriam ter feito “Facu”. Que o prefixo dessa expressão eu conheço: “fá” = ao nome de uma nota musical… Mas o sufixo não. Eu não o conheço! Estes tinham o dever de saber o que vem a ser consciência.
E por extensão, conscientizar os demais da população de seu real significado. Pois, esta era a proposta inicial do movimento negro, mais precisamente, do MNU, e depois herdados pelos demais grupos que o sucederam… E não ficarem explorando a ignorância e ingenuidade alheia e se locupletando, “autobeneficiando” de tal.
Bem! Polêmicas a parte, o que sabemos é que, como eu disse, já se passaram 122 anos de promessas e enganações… E chegamos à conclusão de que somente a administração do país em nossas mãos nos salvará de uma macabra proposta extinção. Esta que já temos todas as provas suficientes que atestam a sua prática, a do genocídio.
Somente não temos autoridades ou tribunais competentes aos quais apresentá-las. E até, ainda, apesar de sermos também declarados nominalmente “livres” nós não temos voz ou sequer vontade.
Bem, para assumir a direção do país nós não estamos preparados? Argumentamos que o Lula apesar de ser analfabeto e falar uma enormidade de asneiras foi eleito… Duas vezes. E com certeza não é ele que cuida da Economia do país. Isso é impossível. No entanto, economistas nós também os temos.
Disso eu não tenho a menor dúvida, e plena certeza. Até eu mesmo conheço alguns, pessoalmente. E demais a mais, qualquer cagada que nós fizermos ficará melhor, bem melhor, muito melhor… Do que o que o branco brasileiro fez até hoje.
Porquanto, não nos constranjamos diante de tantos achincalhes e empecilhos, e digamos:
Agora, somente o poder nos basta e, somente assim, os espíritos da capoeira, do candomblé, do samba e dos nossos ancestrais estarão à salvo.
São Paulo, 24 de outubro de 2010
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL

Neninho de Obalúwáiyé