Porto Alegre – O nome do soldador João Alberto Silveira Freitas, espancado até a morte por seguranças do Carrefour em novembro do ano passado, passou a ser alvo de acirrada disputa política que não respeita nem a sua memória, nem a família.

A corrida pelo espólio de Beto Freitas começou logo após sua morte violenta nas mãos de seguranças na loja do bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, crime que chocou o país e teve repercussão no mundo. Na segunda feira, dia 23 de novembro,  primeiro dia útil após o brutal assassinato, a Educafro e o Centro Santo Dias, duas entidades de S. Paulo, protocolaram ação civil pública pedindo R$ 100 milhões de indenização pelo dano coletivo. A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul só entraria com medida similar dois dias depois pedindo R$ 200 milhões.

Não consta que os advogados, que agora reivindicam honorários de R$ 23 milhões, e seu diretor executivo Frei David Raimundo dos Santos, tenham antes do protocolo da ação, procurado a família para manifestar qualquer solidariedade e pesar. Não haveria tempo.

Viúva é esquecida

Por ocasião das comemorações do 20 de Novembro, a ONG Afrobras e a Faculdade Zumbi dos Palmares anunciaram homenagem póstuma a Beto com a entrega do Troféu Raça Negra.

A entrega do Troféu é um evento que reúne, costumeiramente, artistas e celebridades dos mundos empresarial, político e da TV na Sala S. Paulo.

Para receber o prêmio os promotores convidaram a viúva Milena Freitas, que não pôde viajar de Porto Alegre para S. Paulo, porque foi “esquecida” pela produção do evento no aeroporto Salgado Filho. Oficialmente, segundo a Afrobras, Milena não teria conseguido embarcar por conta de uma taxa de R$ 45,00.

Carrefour e campanha de marketing

Logo em seguida ao crime, o próprio Carrefour, responsável civil pela morte, lançou ampla campanha nos principais redes de comunicação do país – inclusive com anúncios em horário nobre na TV – com a campanha “Beto Freitas: Não vamos esquecer”.

Com a campanha milionária de marketing se apropriou da memória da vítima, buscando reduzir os danos à imagem abalada pelo crime brutal em suas dependências praticado por funcionários sob seu comando.

Para isso, a multinacional francesa contou com a ajuda de lideranças negras com visibilidade no empreendedorismo, na mídia e na academia, por meio da criação de um Comitê de Diversidade para o qual anunciou a destinação de R$ 40 milhões.

Neste domingo (05/12), grupos passaram a anunciar nas redes sociais e veículos da mídia eletrônica em nome da Sociedade Beneficente Floresta Autora, entidade tradicional gaúcha, convite para uma autoproclamada “I celebração Interreligiosa pela Paz”, em sua sede localizada na Estrada Afonso Lourenço Mariante, Belém Velho. O ato teria como objetivo homenagear Beto Freitas e, ao final, é anunciada coleta de alimentos para a comunidade Quilombo do Areal.

Família desautoriza

Os advogados da viúva Milena Freitas, bem ela própria, ficaram sabendo por meio das redes sociais e, até o início da tarde, não tinham informações sobre quem tinha autorizado o uso do nome de Beto para fazer arrecadação de alimentos. O convite para o ato também não é assinado.

Segundo os advogados Hamilton Ribeiro e Carlos Barata, procuradores da viúva, a família desautoriza esse tipo de iniciativa, por considerá-la desrespeitosa à memória do morto.

O advogado Onir Araújo (foto abaixo) disse que, em contato com os advogados da viúva, obteve informação de que a mesma “sequer foi informada sobre a suposta homenagem e tampouco foi contatada pelos organizadores”.

Também, segundo Onir, em contato com dirigente do Quilombo do Areal, o mesmo também informou ter tomado conhecimento no dia de hoje (05/12)”. “Ou seja, não houve contato anterior com a comunidade Quilombola”, denunciou o advogado, que pertence a Frente Quilombola/RS e o Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos.

Onir destacou que a Frente reitera o apoio aos familiares de João Alberto Freitas e, em especial, a sua memória, bem como as entidades SOEUAFROBRASILEIRA E COADE que, “nas barras do Judiciário, estão exigindo que se respeite a Lei das Ações Civis Públicas, bem como os Conselhos, no que se refere a destinação dos valores do Termo de Ajustamento de Conduta, bem como, a responsabilização civil da multinacional francesa e da empresa de segurança por racismo e lesão coletiva ao nosso povo”.

“Repudiamos o uso do nome e a memória de Beto Freitas por oportunistas de ocasião que, como abutres, buscam tirar proveito das nossas desgraças”, acrescentou.

No início do mês passado, a empresa de segurança Vector – a que pertenciam os acusados pelo crime – também assinou acordo com a participação da Educafro e Centro Santo Dias, em que aceitou pagar R$ 1,792 milhões para se livrar de processos. O dinheiro será distribuído em bolsas e cestas básicas de alimento nas periferias de Porto Alegre.

“É uma tragédia que alguns grupos do movimento negro brasileiro aceitem que o dano moral coletivo pelo assassinato de Beto Freitas, possa ser indenizado com cestas básicas”, concluiu Onir.