Mas que treta o negócio do argentino te chamar de macaco e tal, a prisão, várias opiniões, quase todas dizendo que houve exagero, que a lei não se cumpre no Brasil e só se cumpriu nesse caso porque o cara era argentino. Até mestre Tostão, que tem reflexão, refinamento, generosidade para corrigir e bom humor viajou na maionese do exagero. Muitos craques, aqueles que desempenham de maneira exímia as suas funções, reforçaram essa tese. E, como não poderia deixar de ser, muito “cabeça de bagre” pegou carona na opinião de gente que pensa. Um dos poucos a fazer gol de placa foi mestre Sócrates que, por meio de análise abrangente, demonstrou compreender a complexidade da discriminação racial. O mais foi a lucidez do jornalista Jorge Kajuru para desconstruir as falas equivocadas do Rei Pelé. Puta pressão, né Mano?
Eu tremi nas bases quando li numa edição do Lance, cerca de quatro dias depois do acontecido, que você pretendia retirar a queixa, pensei: ele não é Romário, mas é O Cara, não pode perder a chance de fazer História. Pô Mano, depois do Fluminense entrar em campo contra vocês com aquela faixa “alma não tem cor, abaixo a discriminação” e a camiseta do Timão num jogo posterior – “Corinthians contra o racismo”, rapaz, eu arrepiei. Agradeci por Coutinho, Ademir da Guia, Clodoaldo, Jairzinho, Wladimir, Reinaldo, Toninho Cerezo, Vanderlei Luxemburgo, Dida e tantos outros, principalmente os goleiros negros, amaldiçoados desde a perda da Copa de 50, terem vivido para ler essas mensagens. Pena que Barbosa, a bola da vez do racismo da época, morreu sem lavar a alma.
A despeito dos equívocos, tá valendo, não é Mano, porque, repare, mesmo supondo que a alma não tenha cor, quando encarna num corpo negro, numa sociedade racista, como a brasileira, não tem neutralidade certa, é alma de negrão e de negrona, portanto, discriminada igualmente, porque o corpo negro empresta sua negrura à alma. Mas, tudo bem, é um recurso muito filosófico pra um campo de futebol. A coisa boa é que você se manteve firme, mesmo com as pressões que devem ter vindo de todos os lados, inclusive de pessoas brancas próximas, achando que você ficaria exposto ao continuar mexendo no vespeiro.
Senti muito orgulho de você, Mano, da sua determinação. Ogun Patacori, meu general. Em vários momentos da sua guerra, que também é nossa, travada tão solitariamente, vi papai sorrindo em seu trono, lhe dando luz e força pra perseguir a justiça. Embora você pareça ser D’Ogun, não é um homem de ferro, por isso, muitas vezes durante este episódio, lhe vi menino, assustado e frágil, como um pequenino Mutalambô. Duvidei do dia em que lhe apelidaram Grafite por ser você um ás da arte de “grafitar”. Conversa pra boi dormir e pra lembrar que se tratava de um grafiteiro preto. Hum, esse povo vem com o milho e meu angu já tá pronto. Assim Mano, lhe chamo mano e desejo que você fique em paz. São 4Pês – poder para o povo preto!

Cidinha da Silva