Imagens de homens, mulheres e crianças afrobrasileiras (de pele escura) nas campanhas publicitárias não fazem de um Banco uma empresa menos racista.

Na manhã da última quarta feira, 30/03, por volta das 12 horas, cheguei, juntamente com minha esposa, a professora Marilena da Silva, à agência Praça das Mães, do Banco do Brasil, na Avenida Anhanguera, setor Aeroporto, em Goiânia, a fim de descontar cheque recebido por trabalho desenvolvido por ela na semana anterior. Não imaginávamos, nem em nossos piores pesadelos, que seria uma das experiências mais vexatórias, humilhantes, deprimentes e revoltantes de nossas vidas. O racismo espreitava-nos e nos atacaria de diferentes formas em instantes, sem esperarmos.

Como já é costume, pois Marilena é correntista e frequenta o Banco do Brasil há mais de década e meia, a professora colocou seus pertences de metal, incluído aí aparelho celular e pendrive, no compartimento destinado a isto a fim de passar pela porta giratória, como eu já havia feito instantes antes, sob o olhar atento do segurança que controlava a passagem de clientes pela porta giratória.

Neste momento foi que iniciou-se a humilhação e o desrespeito aos direitos da cidadã e cliente impetrados pelos funcionários daquela agência do Banco do Brasil. Por vários minutos seguidos a professora Marilena foi impedida de adentrar à agência, mesmo após abrir e esvaziar sua bolsa de mão e exibir todos os pertences lá contidos, sob a alegação inverídica (e isto será provado pelas investigações!) de que a porta de segurança não podia ser travada ou destravada manualmente.

Neste ínterim, constrangido e indignado, fui até a mesa onde outro segurança solicitava a intervenção do Gerente, sr. Carlindomar, e exigi que a porta fosse liberada ou que alguma explicação honesta nos fosse dada para o impedimento da entrada de minha esposa na agência. A resposta que recebi foi a mesma dada pelo primeiro segurança: era impossível destravar manualmente a porta giratória.

Enquanto isto, de maneira acintosa e claramente desrespeitosa de qualquer regra do Código de Defesa do Consumidor, o segurança "sugeriu" que minha esposa retirasse o cinto que usava por sobre sua saia, levando-a a indignar-se ainda mais com o violento, absurdo e ilegal constrangimento a que estava sendo exposta, e em voz alta perguntar-lhe se teria de despir-se ali para poder entrar no banco.

Convém destacar com veemência que diversas pessoas, inclusive mulheres com bolsas contendo mais metais que a pequena bolsa de minha esposa, passaram livremente pela mesma porta giratória que lhe impedia repetidamente o acesso.

Vendo que a situação não se resolveria de forma consensual, liguei para o 190 e solicitei a vinda de policiais para garantir que o direito de ir e vir de Marilena fosse respeitado, recebendo como resposta do atendente que eu deveria me entender com o gerente e com o chefe da segurança da agência, pois uma viatura policial não seria deslocada para ali apenas pelo motivo por mim declarado, frustrando meu objetivo.

Voltei ao gerente e novamente exigi-lhe a liberação da entrada de Marilena e, chamando a atenção dos clientes presentes à agência, pedi-lhe que repetisse em voz alta a recusa em liberar a passagem e o motivo alegado por ele e pelos seguranças.

Como o racista nunca está só, logo um cliente manifestou-se dizendo que eu e Marilena estávamos  a exigir tratamento diferenciado, gerando com esta intervenção mais confusão e bate-boca, o que levou o gerente a ameaçar-me com a chamada da polícia por eu causar tumulto. Insisti que ele o fizesse, pois mantinha a intenção de registrar a ocorrência do constrangimento ilegal com motivação de discriminação racista, em violação de nossos direitos básicos, o que ocorreu minutos depois com a chegada dos policiais, Sargento Fogaça e Cabo Clebio, que ouviram as partes, anotaram nossos dados e do gerente e recomendaram que fizéssemos o registro da ocorrência em distrito policial da região.

O registro de Boletim de Ocorrência foi feito no 1º Distrito Policial de Goiânia, como constrangimento ilegal e faremos representação contra o Banco do Brasil e seus funcionários envolvidos. A impunidade de racistas investidos em situações de "micropoder" como o segurança e o gerente que impediram a entrada da professora Marilena na agência só serve para que casos como este se repitam mais e mais, diariamente, provocando vexame público, constrangimento, sofrimento e indignação.

Cabe registrar o apoio imediato recebido do amigo e Assistente Social Íris, do Advogado e Jornalista Dojival Vieira e da Professora Janira Sodré Miranda e de [email protected] que acompanharam o caso, em tempo real, nas redes sociais. Contamos com a correta atuação dos agentes policiais, com o rigor da Justiça na aplicação da legislação e punição dos criminosos racistas e com a correção de procedimentos pelo Banco do Brasil e pela Confederal Empresa de Segurança na formação e capacitação de seus funcionários.

José Fernando de Oliveira Moreira – um cidadão afrobrasileiro

 

José Fernando Oliveira Moreira