E assim foi: apesar da rivalidade PT – PDT, ambos lutando por se afirmarem no mesmo segmento da sociedade, e a despeito das diversas falhas que cometemos, assim como da falta de experiência do Governo e da resistência de alguns setores da máquina, Ivanir sempre nos preservou.
A posição de Ivanir – que a partir de então se tornou, mais que um companheiro, um amigo e um irmão – é a que tenho buscado manter em minha trajetória no Movimento Negro: promover a unidade e a solidariedade entre os negros, e particularmente entre a militância, a exceção ficando por conta de falsos militantes como os que criaram, há poucos anos, sob o estímulo dos sinhozinhos da academia e da mídia, uma sigla de aluguel cujo único objetivo é solapar as conquistas do Movimento Negro e impedir seu avanço.
Foi por isso que defendi, nesta mesma lista, a então ministra Matilde Ribeiro, alvo de ataques raivosos de um (suposto) militante mal-educado.
Embora pessoalmente crítico de algumas ações da nascente SEPPIR, considerava fundamental preservar a figura da Ministra, como de outros negros ocupantes desse tipo de cargo, a não ser que tenham comprovadamente se envolvido em escândalos e falcatruas, por ter consciência de que atacá-los é atacar a todos nós. Os inimigos se regozijam.
Ora, faz algum tempo que você vem aproveitando toda oportunidade para atingir Luiza Bairros. Exemplo é o caso do funcionário negro que morreu por falta de atendimento em hospitais de Brasília.
Lendo e relendo todos textos publicados a respeito, não consegui encontrar nenhum indício de que o incidente se relacionasse ao racismo – o que não significa que não tenha sido esse o caso, apenas que é preciso certa cautela ao se fazer uma afirmação dessa natureza, entre outras coisas para não se abrir a guarda a um inimigo ávido por pretextos. Foi o que fez Luiza, e o que eu faria também.
Mas você aproveitou para criticá-la a partir do título da reportagem (“Amenidades”), como se ela devesse ter tomado, mesmo sem base sólida, uma posição, digamos, mais firme. Não é assim que, na minha opinião, devemos tratar nossos irmãos e irmãs militantes que assumem cargos como o dela, tão difíceis quanto solitários.
E aí fica difícil não relacionar seu comportamento sistematicamente negativo em relação à atual Ministra da SEPPIR com a ausência de comentários a respeito da queda de seu ex-colega Orlando Silva. Embora prefira acreditar na inocência dele, pessoa simpática e aparentemente competente, não dar uma única linha a respeito do incidente que resultou em sua demissão evidencia uma postura de dois pesos e duas medidas. Ou o velho “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.
Não concordo com isso. Se ela houvesse cometido algum erro grave, traindo a confiança nela depositada, você estaria coberto de razão. Mas não é esse o caso. Na verdade, vejo na SEPPIR de hoje os mesmos problemas que têm caracterizado o órgão desde a sua criação. Será que isso teria a ver com questões como deficiências orçamentárias e de pessoal, pressões da militância partidária e coisas semelhantes? Algo me diz que sim.
O limite a que me referi é exatamente o da solidariedade negra, que, como disse, sempre me norteou em nossa luta. Não acho justo sacrificar Luiza Bairros no altar das preferências políticas ou de questões meramente pessoais.
Devemos tratá-la com todo respeito, mesmo em nossas críticas, e não como válvula de escape para os erros que diferentes governos, de diferentes partidos, têm cometido em relação a nossas propostas e aspirações. Da mesma forma que faço questão de tratar você nas discussões desta lista e em qualquer instância pública. É essa a minha posição.
Carlos Alberto Medeiros

Carlos Alberto Medeiros