Ao
Meritíssimo Juiz Federal José Carlos do Vale Madeira,
e
Prezados Senhores da Justiça Federal do Maranhão.

Venho por meio desta demonstrar o meu interesse em escutar mais sobre o julgamento a respeito da suspensão dos concursos do Ministério da Cultura direcionados "exclusivamente" a artistas negros.

Tenho convicção que o prezado Juiz Federal José Carlos do Vale Madeira, que tem 30 anos de carreira como professor, advogado, promotor e juiz, que já exerceu seus trabalhos no Acre, Rondônia, Amazônia, e atualmente Maranhão, sabe muito bem julgar o que é bom e o que é ruim socialmente. Por isto me interesso em conhecer mais a fundo os detalhes de seu julgamento.

O meu interesse vem da utilização do termo "exclusivamente", quando o edital Curta Afirmativo tem um caráter inclusivo.

Para se fazer um filme, sendo curta ou longa metragem, são necessários diversos tipos de talentos. Diretor, produtor, ator, roteirista, diretor de arte, diretor de fotografia, diretor de figurino, maquiador, operador de áudio, assistentes, e por aí vai. O papel de uma produção cinematográfica é englobar diversas etnias, culturas, formações e opiniões distintas. O edital Curta Afirmativo vem proporcionar a inclusão de profissionais afrodescendentes dentro desse ramo gigantesco de posições chaves.

A exclusividade seria se todos os artistas fossem afrodescendentes, porém esse não é o caso deste concurso. O que está sendo entendido é que não importa etnia, qualquer cidadão pode mandar um projeto; contudo, o diretor e/ou produtor têm que ser afrodescendentes.

Para ser ainda mais explícito, se existe um diretor de cor azul que tem um projeto que merece ser apoiado pelo ministério através do edital, o que ele deve fazer é procurar um outro produtor negro, ou um diretor negro e incluí-lo em seu projeto. Cabe ao Ministério da Cultura analisar se esse diretor ou produtor negro será realmente uma peça fundamental ou foi incluído por interesse financeiro.

O potencial deste concurso é justamente incluir um afrodescendente numa posição chave de um filme. Um produtor é responsável pelo orçamento, é ele quem trabalha lado a lado com o diretor, é quem contrata as pessoas chaves para o projeto. Muitas vezes tem mais força de decisão que o diretor, e é quem entrega o filme pronto.

Um diretor é pra onde o filme vai emocionalmente, artisticamente e conceitualmente. Ele quem escolhe as pessoas chaves e dá a intenção para a cena. Ele conversa com atores, diretores de fotografia, de arte, figurino e é o diretor quem tece cada frame. Um filme muitas vezes tem mais do que um produtor e as vezes mais que um diretor também.

Para melhor ilustrar esse ponto de vista, vamos expor o caso de um projeto submetido para o edital Curta Afirmativo onde um produtor é branco e outro produtor é negro. Trata-se de uma releitura de Macbeth, de Shakespeare para o cotidiano de uma comunidade carente de São Paulo. Sou bem familiar com o projeto pois sou o roteirista.

Quem me trouxe para o projeto foi meu amigo roteirista e produtor Daniel Perseguim. Ele é branco e eu sou negro. Escrevemos o roteiro e trouxemos nosso amigo diretor negro André Luiz Rosa. A ideia de fazer uma releitura de Macbeth veio do objetivo de demonstrar a universalidade do autor inglês para comunidades que nunca teriam acesso a culturas diferentes de outra forma.

Parte do projeto deste curta metragem é contratar estagiários da comunidade para trabalhar na produção. Outra parte do projeto é fazer o lançamento do curta em diversas comunidades de São Paulo com a ajuda dos moradores. E ainda precisaremos contratar profissionais para a equipe de produção. Todos esses processos serão baseados na capacidade profissional e de comprometimento de cada um, e não na cor da pele.

Este edital é para todos cidadãos brasileiros independentemente da cor de pele, a única diferença é que inclui um afrodescendente numa posição chave. Pela nossa história sabemos que nossos antepassados negros vieram para o Brasil como escravos e ganharam a liberdade depois de muita violência e intolerância. Até hoje existem muitos preconceitos baseados na cor da pele e negros são muito mal representados em novelas e cinema.

O quadro vem mudando aos poucos com a presença de negros em posições de destaque em diversas camadas sociais. Porém a disparidade social brasileira é ainda muito grande. O projeto que enviamos para o Edital Curta Afirmativo é uma forma de remediar esse problema. Não somente trazendo cultura para as comunidades, mas apresentando exemplos para crianças que verão pessoas como elas em posições de destaque que não carregam armas.

O julgamento do Maranhão em relação a esse concurso está impedindo todo o Brasil de participar do edital que inclui um afrodescendente numa posição chave dentro de uma produção cinematográfica. Acredito que não somente eu, mas a sociedade Brasileira gostaria de se aprimorar com maiores detalhes sobre essa medida judicial.

Muito obrigado.

Atenciosamente,
Mario Amadeu.

 

Mário Amadeu