Para Gog, “depois da chegada do Hip Hop no Brasil, a periferia brasileira jamais será a mesma”. Ele, porém, acha que o Movimento Negro deveria estar mais próximo da periferia onde o Hip Hop é também a línguagem da resistência. “Eu sinto falta porque, historicamente, o Movimento Negro já esteve mais próximo do Hip Hop e vice versa. Essa separação dificulta muito o diálogo nas periferias. Porque enquanto nós estamos conversando, o extermínio acontece, os problemas acontecem. Nós precisamos ficar não ficar apenas no discurso, na palavra, temos que partir para ações afetivas. Acredito que o hip hop ainda deve um pouco. Eu acho que quando agente fala que somos a voz da favela, que o estilo do gueto é o nosso, ainda falta um pouco de verdade nisso pelas nossas ações. Eu acho que hoje ainda tem coisas que nos são prejudiciais que são mais fortes; a droga hoje ela tem mais acesso; alguns tipos de igreja tem mais acesso na periferia e voz mais forte do que o hip hop. O hip hop tem de conversar com a família, tem de conversar com a sua proximidade”, afirmou.
O rapper brasiliense, o segundo de uma família de quatro irmãos, que lançou seu primeiro trabalho, em 1.992, denuncia o Projeto do senador tucano Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas, em tramitação no Congresso, que pretende disciplinar o uso da Internet no Brasil, mas que ele chama de “AI-5 Digital”, numa referência ao Ato Institucional 5, da Ditadura, que permitiu o endurecimento do regime militar e a cassação dos direitos políticos e sociais da população brasileira.
“Trata-se de um AI 5 digital no Brasil que promove dentre outras aberrações dizer que se você baixar uma música e passar para outra pessoa, você está passível de 3 anos de cadeia, agora se extermina uma arara azul, que é rara, é um ano de cadeia. Isso e o que a Lei Azeredo diz, o AI 5 digital. A mesma mordaça que nos coloca no dia a dia eles estão querendo colocar no meio de comunicação, que hoje é tido como o mais democrático do planeta, meio esse que provocou uma transformação nas relações sociais. Enquanto que hoje nós estamos discutindo para os negros inclusão digital, eles já estão armando a cadeia para todos nós la na frente”, acrescentou.
Avanços e dilemas
Ao mesmo tempo em que afirma que sob o Governo Lula o povo nunca teve tanta oportunidade de diálogo e a evolução política no sentido do Movimento se fazer presente, ele atribui os avanços “à nossa coragem”. “Quando diziam que o Brasil ia fechar e os empresários iam mudar de país, só queria lembrar as pessoas que acreditaram nisso que eles estavam mentindo e estavam errados”, afirma.
Entretanto, continua, Governo não quer dizer governabilidade. Gog aproveita para denunciar que os bancos privados, que captam nosso dinheiro pagando 1% e emprestam a 9%, 10% não mudaram de dono. “Será que existe no Brasil realmente essa democracia tão conversada, tão falada. Será que vivemos no Brasil em um Estado de Direito. E aí vem o tema do Estatuto. Será que vivemos em um Estado de Direito em que um povo que trabalhou 320 anos, sem carteira assinada, sem condições de trabalho, será que ele não pode vir as ruas se revoltar diante desse descaso, que não é só desse Governo, mas que é histórico da população brasileira? Será que esse diálogo realmente é verdadeiro? Será que a Polícia pede licença prá matar enquanto nós estamos aqui discutindo, quando ainda a cor não nos une? E muito difícil ter as respostas diante de tantas perguntas e tantas inquietações. Eu só sei uma coisa, o diálogo é o caminho”, frisa.
Gog aproveitou para fazer uma convocação: “O Hip Hop não é só o baile, a roupa, o estilo. Mas, acima de tudo é a forma de você escrever, a responsabilidade como você escreve. Respeitar pai e mãe, família. E essa coletividade que vai dar conteúdo. Prá mim, não será sustentável, verdadeiro, a ótica do poder para o povo preto, se o preto também for subjugar que estiver na base da pirâmide social. Então é preciso, além de tudo, muita responsabilidade, muita sensibilidade. E essa é a convocação que eu faço, a cada parceiro, a cada parceira. Que a gente saiba realmente que mundo queremos, que Brasil queremos que sociedade queremos e a partir desse foco a gente possa falar: olha, é o caminho. Vamos! Nós temos que trabalhar naquela cena: ação, senão revolução acaba em moda. E se acabar em moda é complicado, na hora que agente precisar dos guerreiros, mesmo, não vai ter guerreiros, vai ter gente correndo. Prá gente não correr, prá ta firme, tem que ter preparo”, garante.
O rapper brasiliense termina fazendo fazendo um alerta. “Vida longa ao Hip Hop, mas o Hip Hop sustentável, responsável. E não o só Hip Hop do movimento Rap, do movimento Grafite, do movimento DJ; são movimentos separados, egoístas. O Hip Hop não pode ser isso. Ele tem de se enxergar, tem que se olhar, tem que se tocar”, finalizou.
Veja a entrevista de Gog, na TV Afropress

https://www.afropress.com/tvAfropressVer.asp?idMovie=60

O rapper brasiliense Gog, em entrevista à Afropress.