Por desconhecer os fatos pessoalmente, poderia dirimir dos textos publicados, que se tratasse de uma discussão de eleição de síndico de condomínio, ou chá das cinco de clube de esquina.
Mas como o assunto é o Conselho da Comunidade Negra de São Paulo, considero que se deva ter mais ponderação de todas as partes envolvidas.
Que em 70 nossas lideranças fôssem escolhidas em reuniões de meia dúzia, para usar a terminologia do auto-denominado líder negro socialista de plantão na Academia, dá para entender, pois afinal de conta éramos meia dúzia mesmo.
Hoje, que como resultado de um processo de reconstrução da identidade e consciência democrática nacional, podemos dizer que já são milhões, que pelo menos têm a consciência que não podem mais deixar que outras pessoas os discriminem pela sua cor da pele, e que podem em conjunto com todas as pessoas antiracistas lutarem pelos seus direitos, as coisas tem que ser diferentes.
Hoje, que dá até um certo IBOPE ser conselheiro de comunidade negra até na Finlândia, creio que as regras devam ser outras, transparentes e sem medo, até porque nos 70, dizer que era líder, era dar a mão para a palmatória, pois quantas vezes escutávamos, até “duzôme”:pô cara tô cuntigo, mas num dá prá mostrar a cara, certo?”
Hoje, quando digamos, ser conselheiro, chega a ser uma regalia, com direito, a cafezinhos e rapapés barnabédianos, as coisas tem a obrigação de acontecerem de forma mais aberta, com a participação das comunidades representadas, do contrário em pouco tempo teremos Conselhos de Comunidades, parecidos com diretorias de escolas de samba do Rio de Janeiro, que tem de tudo menos sambistas (já peço desculpas de antemão pelas brilhantes exceções).
Por isso penso, que está na hora de termos um “conselho” mediador para estes casos. Pois não dá para tapar o sol com a peneira, e não querer que os partidos de governos municipais, estaduais e federais, tenham influência nos conselhos que outorgam e delimitam.
Mas tá na hora de segurar o santo com as quatros mãos, pois o andor da comunidade negra é de barro pisado.
Já é tão complicado lutar contra a discriminação, e agora ainda ter que evitar a avacalhação de sermos representados sem transparência e participação popular, já é demais.
Brincávamos em 70 sobre a sem-vergonhice do racismo à brasileira; cheguei a ter uma visão futurista sobre o momento em que os negros chegassem ao “poder” no Brasil – relevem as palavras, pois era a época dos “powers”.
Neste momento glorioso, eu me via não como presidente do Brasil, onde o poder seria pouco, mas como um dono de cartório em São Paulo, um cartório de justiça especializado em autenticar árvores genealógicas de pessoas com um pézinho na cozinha.
Tenho certeza hoje, que eu ficaria mais rico que um “mogul” ex-líder do politiburo da ex-URSS, tamanha seria a fila dos racistas que desejariam ser racistas ao contrário, pois para ser racista ao contrário a pessoa precisa ter antes a experiência como racista! Assim os brancos brasileiros iriam exigir, e com direito, um título de negão quatrocentão e assim poderiam continuar dando pau, nos negões que não tivessem grana para fazerem um exame de qualidade genética, que comprovassem que eles eram negões com o mesmo nível deles.
Para se ter alguma influência enquanto Conselho, é sempre necessário representatividade, e para se ter representatividade em um Conselho de Comunidade Negra é condição “sine qua non” que estes conselheiros e conselheiras sejam anti-racistas, e para reforçar o que o Kiss falou, ser antiracista não é uma questão de cor de pele, e sim de consciência, consciência de que ser antiracista é uma ação que só termina quando o racismo acaba, e como o racismo é manhoso, te pega pelo pé na curva, o melhor caminho para não ser racista é ser antiracista até morrer. Como dizem os flamenguistas como forma de não virarem botafoguenses.
Antiracismo é uma via de mão única a ser seguida por todos os conselhos de comunidades negras, indígenas, judias, alemãs, turcas, polacas, africanas e tudo mais que careça ser representado em um Brasil Plural do futuro.
O conselheiro, ou conselheira de alguma Comunidade Negra, que tenha esta primeira condição preenchida que é ser antiracista, tem então que partir para falar para todo mundo e ouvir todo/as que representa ou que deseja representar. E, principalmente, falar com seu partido ou corrente que enquanto conselheiro/a, a defesa antiracista da comunidade negra é prioritária. Se não der, ou se muda de partido, ou larga-se o Conselho. Evita-se assim ficar levando uma vida furta-cor, e andando pelas ruas de cabeça baixa, como um burro quando foge.
Com muito axé e a esperança que migalhas do poder não destruam o elã tranformador e ponderado de poder, que nossas velhas “senhoras” nos passaram. Pois lembrando minha avó Georgina, dinheiro e poder vão e voltam, mas a cor fica.

Marcos Romão