Considero o congresso, como um ação de todos os negros, mesmo dos que estão de fora por algum motivo. Assim como defendo que no congresso todas as posições e opiniões sejam garantidas em se expressarem. Os contra e os a favor do estatuto.
Um congresso só se legitimará se tiver como resultado um perfil que demonstre a opinião aproximada de todos os negros brasileiros. Postura diferente irá repetir apenas o comportamento salvacionista da elites brancas brasileiras.
Uma das características mais marcantes do movimentos que os negros do Brasil (vejam bem: movimentos dos negros, não os autodenominados movimentos negros) têm tido ao longo destes 500 anos é a resistência ao canto das sereias sibilinas que aprontam métodos salvatórios tirados de algibeira. Nem nas marchas com “Deus pela Liberdade”, vejo nos documentários, negros animados nas passeatas, tavam lá porque eram empregados domésticos ou de firmas que dispensavam o ponto.
Esse milagre nacional, que foi construir umas das maiores nações culturais negras do mundo, apesar de genocídios, discriminações, esquadrões da morte, torturas e da humilhação do cotidiano de viver sob um racismo sonso, é o que está assustando a elite branca, que já não ganha bolsas de estudos para falar de negros ou índios brasileiros nem na Europa nem nos EUA, e até universidade japonesa já sabe que a produção acadêmica brasileira é viciada por tentar de toda forma negar o a existência do racismo safado que é o brasileiro.
Assustado não está só essa elite branca; assustados também devem estar, negros que se equivocaram em suas análises ideológicas, que se aproximaram demais, ou se apegaram de teorias européias de direita ou esquerda que nos explicassem. Pois nada nos explica. Pois nao se explica o que não existe.
E todas as teorias européias produzidas até Franz Fanon, partiram da premissa de que não existíamos. De lá pra cá, e só sebo teórico tentando explicar a quadratura do círculo que é o fato que nem as teorias de esquerda nem as de direita são suficientes para eliminar as diferenca de raça, gênero e o que seja, pois falta a vontade imediata. E ter essa vontade imediata significa renunciar a privilégios que na cadeia hieráquica da supremacia branca mundial, autócnes negros em todos os paises da África e da diáspora, correm o risco, de também levaram vantagem na manutenção do racismo imediato quando se equivocam. Traduzindo: racismo de agora é prá ser eliminado agora.
Uma tradução imediata deste sebo teórico que eu mesmo tou viciado: em 82, quando junto com meia dúzia de de malucos criamos a base para o SOS Racismo no IPCN, alguns amigos que hoje estão contra o Estatuto, riram desta ação samaritana e “paliativa”. Mas foram 6 anos entrando de madrugada em delegacias, prisões, hospitais e necrotérios. Mas cada “um único negro ou negra”, que nós tiramos debaixo do “pau-de-arara” com nosso “exército de brancaleone”, foi mais um que hoje deve estar em algum lugar pra falar a favor ou contra o Estatuto.
Estes mesmos dados recolhidos por meia dúzia de “samaritanas” (a maioria do SOS Racismo era composta por mulheres), foi a base da lei anti-racista, que cognominaram Lei Caó. Continuo na mesma linha, assim com meus velhos amigos, e vou lutar para que este Estatuto, consiga que, pelo menos “um único negro ou negra” possa aproveitar dele. E quem sabe ele nos ajude a criarmos novas teorias de convivência e respeito.
Quem sabe ele ou ela nos ajudem a não fazermos duelos de pinicos. Quem sabe ele ou ela nos ajudem a compreender que em guetos e prisões nós perdemos a humanidade e o senso crítico, e antropofagicamente devoramos uns aos outros. Que continue acontecendo este Congresso, com todas as opiniões, e quem sabe passemos à frente dos brancos brasileiros que como boa parte de nossas elites negras no mundo ainda não viram que o muro de Berlim caiu, e os Marx, tanto o Karl quanto o Weber, estão sentados numa encruzilhada morrendo de rir da confusão que aprontaram nas cabecinhas dos revolucionários salvacionistas do mundo inteiro, e por incrível que pareça até na ilha do pensamento filsófico vítreo que é o Brasil. Axé prá todos e continuo repetindo que preto só é igual na caçapa de um camburão. Em um Congresso Negro temos direito de sermos o que quisermos.

Marcos Romão