Meus amigos e amigas,

Notícias promissoras e alentadoras dão-nos conta de que nem tudo está perdido nas legítimas lutas da negritude brasileira. O Instituto da Advocacia Racial e Ambiental, presidida pelo aguerrido advogado Humberto Adami, irmanado ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil promoverão o que a décadas já deveria ter sido criada: a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil. Com ações verdadeiras e efetivas investigarão  as causas e os efeitos relativos à escravidão de africanos e seus descendentes ocorridos em território brasileiro.

O assunto, mais que uma reflexão, merece uma comemoração, haja vista o obscurantismo político e a inércia da maioria das entidades de defesa e promoção da causa negra.

Os militantes dos movimentos negros, pós anos 80, tirando proveito da redemocratização do país, com o fim da ditadura militar e a criação de novos partidos, embarcaram com a cara e a coragem nos trens da alegria promovidos por estados e prefeituras e aportaram nas secretarias, órgãos, autarquias e gabinetes de políticos. A sede de mamar nas tetas do serviço público foi tanta que a ideologia, a resistência, a bandeira de luta foi esquecida ou relegada a um segundo plano.

Eu transporto-me ao início dos anos 80 quando o gaúcho Leonel Brizola elegeu-se governador do Estado do Rio de Janeiro com o apoio maciço da raça negra. Honrando compromisso de campanha, Brizola nomeou três personalidades negras para compor o seu governo: Dra. Edialeda Salgado do Nascimento, Secretária de Promoção Social; Jornalista Carlos Alberto de Oliveira, Secretário de Trabalho e o Cel. PM. Carlos Magno Nazareth Cerqueira, Secretário de Polícia Militar.

No bojo dessas nomeações, um trem da alegria repleto de líderes e militantes dos movimentos negros fluminense estacionou nas plataformas dos interesses pessoais, não somente nas secretarias comandadas por negros, mas numa distribuição de cargos generalizadas. Foi apartir daí que o vírus da inércia e do eu vou é me dar bem se alojou nas mentes, propostas e nas ideologias dosirmãos do movimento negro, como carinhosamente se referia Leonel Brizola.

Os anos 90, os anos 2000 e a década de 10 vieram e a gula dessa rapaziada aumentou consideravelmente. A causa negra, a luta pela igualdade, a busca pela prática da liberdade e a resistência ficaram estacionadas nas inúmeras Secretarias de Promoção da Igualdade Racial espalhada pelas três esferas de poder; nos conselhos de defesas dos negros; nos incomensuráveis Institutos, Associações e Organizações que se proliferam pelo país e usam o prefixo afro e o vocábulo negro para simular uma pseuda defesa da causa.

Hoje assistimos, estarrecidos, um padre negro ser expulso por racismo da paróquia que dirigia.  E mais estarrecedor ainda é vermos surgir um energúmeno com o título de bispo justificar a saída do padre com alegação de que o rebanho não poderia ficar dividido. E qual a voz que se levantou efetivamente contra esse maléfico bispo?

E não para por aí.

Um juiz de direito, Marcelo Baldochi, ao perder um voo porque chegou atrasado ao embarque no aeroporto de Imperatriz (MA), revoltou-se e deu voz de prisão às duas funcionárias da TAM. Mesmo informado de que a aeronave já estava na pista para a decolagem, exigia o retorna da nave para que pudesse embarcar.

Entendendo que houve excessos, o Conselho da Magistratura do Maranhão, ao investigar o referido juiz, descobriu que em 2007, na sua fazenda, no interior do Maranhão, o magistrado mantinha 15 empregados negros trabalhando em regime de escravidão, por mais de 12 horas diárias. Um dos escravos conseguiu fugir e denunciou o juiz escravocrata. A polícia resgatou além dos 25 escravos outros 4 que também eram mantidos em regime de escravidão numa outra propriedade do juiz, que nunca foi condenado por essa barbárie.

Fica a pergunta que não quer calar. Onde estava e o que fazia a SEPPIR, os conselhos estaduais, municipais, entidades de defesas e outras baboseiras, de iguais teores, que não se manifestaram? É sempre assim: se o caso se torna um acontecimento que envolve grande repercussão da mídia e da imprensa, ai esses defensores da raça dão os ares das suas graças. Também, tratando-se de um juiz ou de uma outra autoridade, os negros profissionais se calam.

Nas redes sociais artistas negros, apresentadora de noticiário da TV, pessoas comuns e autoridades negras sofrem violentas agressões verbais; nos estádios jogadores negros são ofendidos e tem a as suas imagens a assimiladas às do macaco; nos hospitais públicos e postos de saúde as gestantes negras tem o parto realizado nas calçadas e nas recepções, por outros pacientes solidários; os cidadãos negros recebendo penas mais pesadas da justiça em detrimento ao cidadão da cor branca; escolas públicas com péssima qualidade de ensino onde predomina a população negra e nordestina; a figura do negro excluída dos grandes eventos artísticos, culturais e festivos nos estados…

Eu pergunto: onde estão as Luiza Barrios da vida que não usam os poderes que lhes são outorgados pelos governos e políticos das quais estão chafurdados?  Cadê as ações efetivas dos conselhos estaduais e municipais de defesa dos negros? Por onde anda as propostas e projetos da bancada negra (se é que existe) no Congresso?

A inércia, comodismo e passividade das ditas secretarias, entidades, associações e órgãos de promoção da igualdade racial, somados ao oportunismo dos movimentos negros, são os principais responsáveis do estancamento e da segmentação da causa negra. Hoje, qualquer ação verdadeira em defesa da causa negra se transforma em culto religioso, roda de capoeira, carnaval e manifestações da diversidade sexual. A verdadeira essência da causa passa em branco. E não se fala mais nisso.

Há tantos projetos a serem criados, tantas propostas a serem discutidas, inúmeras ações a serem colocadas em práticas, e uma imensa vontade da população de virem seus anseios alcançados no patamar da igualdade. Metas que só serão realizadas por meio da dignidade e da seriedade, essências incompatíveis com os que usam a causa negra para promoção e proveitos próprios.

A ação efetiva do Instituto da Advocacia Racial e Ambiental e do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil chega-nos num momento oportuno, e nos enche de orgulho e de coragem.

Que sirva de exemplo!

Abraços a todo(as).

 

Flávio Leandro