Meus amigos e minhas amigas,

Na minha última carta, Por Trás da Cortina do Terror, fiz uma breve menção sobre o Quilombo do Bomba, existente num área que margeava o Rio Sarapuí, no bairro do Pilar, em Duque de Caxias. Recebi dezenas de e-mails de fluminenses e cariocas dizendo desconhecer a existência de tal Quilombo. Outros, mais agressivos, acusaram-me de estar inventando tal Quilombo para descaracterizar a luta em prol dos Quilombolas. Confesso não ter entendido tal raciocínio.

O Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, têm vários documentos que atestam a existência não só do Quilombo do Bomba, mas de outros inúmeros Quilombos na Baixada Fluminense. A professora Dalva Lazaroni escreveu o livro Quilombos e Tiradentes na Baixada Fluminense que, em parte, trata do assunto.

Eu não seria irresponsável em usar uma ferramenta de discussão e de debate tão importantepara postar inverdade sobre a minha raça. Raça que defendo com veemência contra aqueles que a usam como mercadoria de barganha.

Vários foram os Quilombos existentes na Baixada Fluminense, principalmente às margens dos Rios que desemborcam na Baia da Guanabara. Naquele tempo não havia a poluição das águas promovida pela REDUC – Refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, que despeja com frequência toneladas de dejetos químicos, milhões de litros de óleos descartáveis e de resíduos poluentes nos mananciais e na própria Baia.

Esses Quilombos se diversificavam em suas características econômica e social. A maioria era agrícola; tinha na plantação de víveres seu meio de subsistência. Mas havia os Quilombos mineradores, extrativistas, mercantis, pastoris, pedratórios e os de serviços. Os Quilombos da região que hoje é o Município de Duque de Caxias – presumem-se em torno de cinco – dividiam-se entre duas características: predatórias e de serviços.

Na predatória, os quilombolas tinham como atividades saquear os viajantes, os tropeiros e as propriedades. Na de serviços, exerciam atividades de lenhadores, caçadores, pescadores e artesãos. As mercadorias e produtos, frutos desses serviços, eram vendidas ou trocadas por tecidos, açúcar e sal.

Quilombo do Bomba foi fundado e tinha como líder o negro Gabriel. Sua característica era a prestação de serviços. Seus quilombolas eram exímios lenhadores, pescadores e caçadores. Orientados por seu líder, os quilombolas levavam as lenhas, as pescas e as caças até certo ponto, próximo das aldeias e vilarejos; lá vendiam e trocavam as mercadorias por tecidos, sal e açúcar. Gabriel e seus quilombolas eram ferozmente caçados pela Guarda Imperial, mas essa não sabia como localizá-los nas matas.

Na manhã do dia 8 de Julho de 1877, o Coronel Joaquim Alves Machado, nomeado Delegado, comandando cerca de 80 praças, um escrivão e diversos homens à paisana, empreendeu uma feroz caçada pelas matas da Freguesia do Pilar, hoje bairro do mesmo nome, margeando o Rio Sarapuí, ao líder quilombola Gabriel.

Com a ajuda de um quilombola, traidor, de nome Tibúrcio, chegaram de surpresa ao Quilombo do Bomba. Lá encontraram oito ranchos regulares cobertos de palhas de coqueiro e parede de madeira da própria região. Havia plantação de cana, de banana, de árvores frutíferas como jaca, manga e abacate e um cemitério. Foram presos 23 Quilombolas.  Gabriel e cerca de outros 20 quilombolas conseguiram fugir.

Por ordem do Coronel, os Praças recolheram armas de fogo, facões, foices, canoas, redes de pescar, ferramentas de carpinteiros, obras de  artesanatos de madeiras talhadas artesanalmente e boa lenha. Depois incendiaram todas as casas alie existentes e destruíram o Quilombo do Bomba ou Quilombo do Gabriel.

Em 1882, Gabriel já liderava outro Quilombo fundado por ele, e que tinha o seu nome, na localidade da Estrela, numa região hoje conhecida como Mauá, município de Magé.

No dia 25 de Julho de 1883, denunciado por um dos seus comandados, o líder Quilombola foi preso. Sobre ele pesava, também, a acusação de ter matado na Freguesia do Pilar, no dia 17 de outubro de 1881, um tropeiro, espião da Guarda Imperial, conhecido comoPassarinho.

Os Quilombos históricos da Baixada Fluminense, na verdade, não são desconhecidos. São renegados. Isso porque, não estão em áreas nobres, áreas ricas em minérios ou em áreas produtivas. Esses Quilombos estão, hoje, em áreas pantanosas ou inóspitas. Não desperta o interesse dos quilombistas.

Existiram outros Quilombos na Baixada Fluminense, mas me atentei no Quilombo do Bomba, para calar aqueles que me acusam de desconhecer a causa quilombola. E, também, para que meus detratores tomem conhecimento de que sou um negro de raça, de pele, de consciência e de etnia. Não sou um negro profissional. Como é o caso deles.

Só no centro da Cidade do Rio existem dezenas de ONGs voltadas para o resgate direitos dos quilombolas. Pergunta a um desses gestores do terceiro setor sobre a situação dos Quilombos Fluminenses. Esses quilombistas nem sabem se existe ou se existiram tais Quilombos.

Há quinhentos milhões de reais, do Governo federal, a serem liberados para ações em prol dos quilombos brasileiros. Famintas e ansiosas estão centenas de ONGs e entidades de defesa dos Quilombos querendo abocanhar essa verba com a missão de gerì-la.

Alguém acredita que algum Quilombo vai ver a cor de pelo menos um milésimo desse dinheiro?

Abraços a todos.

Flávio Leandro

Glossário: Quilombistas: cidadãs e cidadãos negros e brancos que se passam por quilombolas – a maioria nunca pisou num Quilombo – para usufruir de bens, serviços, prestígios e verbas públicas, usando a legítima causa quilombola como ferramenta política de seus interesses. 

 

Flávio Leandro