O caso de racismo explícito praticado por uma funcionária da grife Animale, da Oscar Freire, bairro paulistano dos Jardins, contra uma criança de apenas oito anos, expulsa da calçada onde se encontrava, não foi o primeiro, nem será o último.

Depois da denúncia do pai da criança, o norte-americano Jonathan Duran, editor financeiro que vive há 19 anos no Brasil e é casado com uma brasileira, o episódio ganhou as redes sociais e a grande mídia e, neste sábado (11/04), está prevista manifestação de protesto em frente a loja. É um primeiro passo, um ponto de partida, mas o caminho é ainda longo.

Todos os dias crianças pobres e negras são alvos desse tipo de atitude que só pode ser explicada pelo fosso que separa uma parcela da população no Brasil – exatamente essa classe média branca que vive e consome nas lojas de grife dos jardins – da esmagadora maioria da população, pobre e negra,  sistematicamente expulsa para as margens das grandes cidades.

É assim desde sempre.

O Brasil é um país que há mais de um século (ao menos desde a Abolição, há quase 127 anos), continua a conviver com a mais obscena desigualdade social, e o racismo, a herança maldita dos quase 400 anos de escravidão, é um dos elementos estruturantes dessa desigualdade.  Os governos fazem vistas grossas.

E o movimento negro que temos , a rigor, nem mereceria o nome de movimento posto que sua posição preferencial é a ausência de movimento e a ocupação de espaços simbólicos no Estado e uma meia dúzia se contenta com as migalhas que caem da mesa da Casa Grande.

O resultado é esse: mesmo após quase 127 anos da Abolição, a classe média branca, das grandes cidades, em especial, continua a achar que, na ausência da senzala, o lugar de negro é longe dos olhos, distante dos espaços de consumo, a não ser quando é chamado para o trabalho para lavrar privadas e para o trabalho doméstico. Os shoppings são bem uma vitrine desse apartheid sóciorracial mal disfarçado.

Essa situação não mudará enquanto não houver uma reação forte de todos, a começar por nós negros, que não podemos aceitar o espaço do simbólico nem a denúncia abstrata que povoa a boca e as faixas de um certo ativismo, que não consegue assumir a luta real de combate a herança maldita da discriminação.

Fica-se no abstrato, na palavra de ordem, que logo se esvazia, no terreno do simbólico, em que tudo é racismo. Ora, se tudo é racismo, nada é racismo, e vamos ficando por isso mesmo, ou seja: o sistema racista vai muito bem obrigado e periga entrarmos no século XXII assistindo as cenas da Oscar Freire.

O combate ao racismo deve ser feito primeiro levando-se em conta de que essa patologia social precisa ser erradicada, e isso deve ser feito, por meio da denúncia, sim, por meio da repressão, sim, e para isso temos dezenas de leis,  mas, principalmente, pela informação, pela educação.

Fruto da ignorância ( afinal, considerar que alguém por ser branco é superior, é acima de tudo, um ato de ignorância, já que a ciência já concluiu que pertencemos a uma mesma e única raça – a raça humana), o racismo precisa ser enfrentado como um dado objetivo, concreto. Informação e Educação antirracista são um remédio, eficaz. Quando não forem suficientes temos as leis que punem e uma Constituição que define o racismo como crime inafiançável e imprescritível.

Não basta a “Família Animale” e aos diretores e gerentes da grife da Oscar Freire, nem suas associações de lojistas ou sindicatos, saírem com notas negando óbvio, ou com palavras de solidariedade, reiterando “o compromisso com o aprimoramento, o respeito e a solidariedade humana, especialmente com as crianças”.

São palavras que se prestam apenas a tentar reduzir os danos a imagem que o episódio provocou.

O que é preciso é que adotem Programas de informação e sensibilização dos seus funcionários – incluindo os seguranças – medidas que possibilitem uma verdadeira mudança de atitude, de postura, a partir da consciência do que é e o que representa o racismo não apenas para a população negra, que, nunca é demais lembrar é maioria no Brasil (53,1% da população, de acordo com a PNAD 2013); em S. Paulo, capital, somos cerca de 4 milhões de pessoas – 37% da população, de acordo com a Fundação Seade.

Sem medidas objetivas e concretas, em que lojistas assumam a responsabilidade e o custo de reeducar os seus funcionários e colaboradores para que passem a cultivar e difundir uma cultura antirracista, outros episódios ocorrerão, apesar das notas oficiais carregadas de boas intenções como a da “Família Animale”.

Até porque, como bem diz o ditado popular conhecido, "de bem intencionados o inferno está cheio".

Dojival Vieira