Bethel/Connecticut/EUA – A ativista norte-americana, TaNesha Barnes, socióloga e historiadora, que tem participado dos atos de protesto que estão acontecendo em todo o país por causa da absolvição por um Tribunal da Flórida, de George Zimmerman, acusado pelo assassinato do adolescente negro Trayvon Martin, disse que o caso só pode ser compreendido no contexto das relações e das contradições do sistema capitalista norte-americano.

Martin foi morto a tiros no dia 26 de fevereiro do ano passado por Zimmerman, um vigilante voluntário (o equivalente no Brasil a antiga figura do inspetor de quarteirão), quando se dirigia para a casa do seu pai. Ativistas negros norte-americanos acusam o júri – formado por cinco mulheres brancas – de racismo. A defesa alegou legítima defesa.

Ao ser abordado pelo assassino, o jovem Trayvon vestia um capuz para se proteger do frio, o que o tornou um suspeito aos olhos do vigilante. A peça virou símbolo dos protestos sob o lema "Vista o capuz por Trayvon". 

“O cerne dessa questão é sempre o capitalismo. Nosso país foi construído sobre a exploração dos negros e não-brancos. E o racismo é consequência disso. Isso é sistêmico. Todas as nossas instituições estão organizadas para discriminar em benefício do lucro financeiro. O sistema de Justiça não é diferente. Quanto mais gente negra atrás das grades mais postos de trabalhos livres para eles [os não-negros]”, afirmou Barnes, em entrevista especial para a Afropress dada a Maria de Fátima Morbach de Medeiros, de quem é amiga e com quem conversou por meio da rede social Facebook.

Segundo a socióloga, que mantém uma escola em Bethel, com o nome Beyond The Surface (Para além da superfície na tradução livre para o português), em que crianças recebem educação para se tornarem cidadãos críticos numa perspectiva de eliminação das desigualdades de raça, classe e gênero, “a sociedade americana faz com que todos vejam as pessoas negras como criminosas e então quando nós somos vítimas, como frequentemente somos, ninguém se importa”.

O Departamento de Justiça está investigando o assassinato de Travin Martin, para determinar se o Ministério Público Federal deve apresentar acusações criminais com base na lei de defesa dos direitos civis. Antes de iniciado o julgamento, essa iniciativa já havia sido tomada, porém, o Ministério Público Federal deixou a cargo do Estado o julgamento.

Nos EUA cada Estado tem uma legislação penal específica, diferente do Brasil, em que a lei penal tem vigência em todo o território nacional.

Confira, na íntegra, a entrevista

Afropress – Qual está sendo a reação das pessoas?

TaNesha Barnes – As pessoas estão ultrajadas e protestando pelo país inteiro. Meus alunos me relataram que o que tem ouvido nas ruas é que as pessoas estão protestando por ódio e raiva. Como se a raiva fosse uma coisa ruim. É por isso que nós estamos morrendo como um povo, sem nenhuma consequência. Ninguém tenta ensinar sobre a luta dos homens negros, sobre a luta do seu povo. Só ensinam que eles devem perdoar, orar e assim tudo ficará bem com o mundo.

A integração que nos ensinaram é aquela pregada pelo modelo de cristianismo dos senhores de escravos. O Jesus sobre o qual eu li virava a mesa, falava a verdade para os poderosos e lutava pela justiça social. Me enoja deixar nossos filhos se tornarem peões e ferramentas para nossa própria opressão. Há uma petição  circulando para que o caso passe a ser tratado como um caso de violação dos direitos civis.

Afropress: Explique melhor isso?

TB – Isso força o Governo Federal a abrir o caso contra Zimmerman. Leva o caso para a esfera federal.

Afropress – Onde estão ocorrendo os maiores protestos?

TB: São milhares em todo o país. Hoje mesmo, no Bronx, em Nova York, haverá uma passeata de protesto exigindo Justiça.

Quem é TaNesha

A texana TaNesha Barnes se formou em Sociologia pela Universidade de Nova York e em História pela Western Connecticut State University, com ênfase na história da mulher negra Americana.

Ela também tem mestrado em Educação para a Justiça Social pelo Spark Teacher’s Institute, especializando em Educação de meninos afro-americanos. Também estudou na Rússia, Itália e Índias Ocidentais.

Ela também experiências como produtora de cinema sendo responsável por dois documentarios: World Trade: Gli African in Italia Vecchia, em que trata da situação dos africanos na Itália, e o outro – Baby Mama Rebellion – em fase de conclusão, sobre a trajetória das mães negras na América.

 

Da Redacao