Entretanto, a história foi completamente diferente quatro dias depois. A direção do Teatro decidiu (acertadamente) homenagear aquele que, sem dúvida, foi a maior estrela a pisar no seu palco. E seus fãs, compareceram em massa.
A temperatura não poderia estar melhor. Os termômetros marcavam, mais ou menos, 35 graus. O céu estava azul e a multidão, que começou a chegar logo cedo, cantava feliz os maiores sucessos do Rei do Pop. A porta só abriria por volta das 14 horas, horário local.
Ao me aproximar, já dentro do ônibus que tomei, dava para perceber que a Rua 125 estava mais agitada do que de costume. O tráfego lento. A Polícia dirigindo o trânsito. Alguns quadras antes, desci do ônibus e fui caminhando em direção à porta. Os vendores ambulantes vendiam de tudo que se possa imaginar, de “buttons” à bonecos miniaturas de Michael Jackson que, segundo um vendedor, eram vendidas no site de leilão da internet (E-Bay) por mais de 150 dólares.
Não posso dizer que me surpreendi com a multidão. O que me impressionou foi que, do outro lado da rua, uma outra multidão se reuniu apenas para observar a atmosfera em volta. Crianças, jovens e também adultos, vestidos estilo Michael Jackson, dançavam sua famosa coreografia “Moonwalk”.
Entrei na fila por volta das 15h, horário local. Ao meu lado, duas mulheres, uma delas coreana de mais ou menos 60 anos, que há mais de 30 mora no Harlem. Ela me disse que estava ali porque considerava Michael Jackson “The Best one” (O melhor de todos).
Me contou que não podia acreditar que estivesse morto.. Enquanto esperava na fila, pude observar a pessoas para celebrar não o Michael dos últimos 15 anos. O que era tratado pelos tablóides e revistas sensacionalistas como Jacko (um trocadilho com a palavra “Wacko”, que quer dizer louco, por causa de suas excentricidades, sua mudança de pele e também por sua maneira estranha de se vestir cobrindo o rosto.
A multidão, majoritariamente de afro-americanos, se fez presente para celebrar o pequeno Michael do “Brother Jacksons”, que se apresentou no Apollo aos cinco anos de idade; o Michael do Grupo Jackson Five; o Michael da carreira solo que nos trouxe os álbuns “Off the Wall” (em minha opinião o melhor deles), “Thriller,” e também “Bad”.
A multidão compareceu ao Apollo Theater para celebrar Michael Joseph Jackson, da cidade de Gary, em Indiana, o Michael do sorriso de criança. O Michael, de início modesto, morando com seus pais, cinco irmãos e três irmãs numa pequena casa, na mesma condição econômica de muita gente por aqui.
Depois de enfrentar uma fila de mais de 4 horas e uma chuva torrencial que caiu no final da tarde, finalmente entrei no Teatro. Numa parceria com as duas principais rádios da cidade – Hot 97, dedicada mais a turma do Hip Hop e 98.7 KISS, esta dedicada a velha guarda da musica “Soul” e “Rhythm and Blues” – o Apollo foi abaixo com as musicas e os principais vídeos do cantor.
Como um pastor pedindo a sua audiência respostas às suas perguntas, o mestre de cerimônias gritava ao microfone: “Por quem estamos aqui?” e todos em uníssono, “Michael, Michael, Michael”. De repente, não me senti ensopado, não tinha fome, havia esquecido também das horas na fila. Tudo agora era festa e celebração.
Ao caminhar, na saída, em direção ao Metrô, na Rua 125, que foi fechada pela Polícia, observei a multidão que ainda estava na frente do Apollo implorando para entrar. Michael Jackson, onde quer que esteja, certamente estará contente com as celebrações ao seu legado musical pelos milhões de fãs ao redor do mundo. Felizmente, para nós simples mortais, suas músicas e seus vídeos permanecerão até os nossos últimos dias.

Edson Cadette