S. Paulo – Com o salão São Francisco, inclusive o piso superior completamente lotado, e a presença de vereadores, dois deputados estaduais, dois federais, líderes religiosos evangélicos, da Igreja Católica, de religiões de matriz africana e centenas de ativistas das várias regiões da capital (cerca de 1.200 pessoas para os organizadores) foi lançado nesta sexta-feira, o Fórum SP da Igualdade Racial, iniciativa do Movimento Brasil Afirmativo, da Rede Educafro, Instituto do Negro Padre Batista e de mais uma dezena de entidades negras e anti-racistas.
O Fórum pretende mobilizar a sociedade para pressionar o Congresso a votar o Estatuto da Igualdade Racial e o PL 73/99, que reserva 50% das vagas para alunos da escola pública com cotas para negros e indígenas no acesso às universidades. A meta é coletar 100 mil assinaturas até o final do mês de julho e entregá-las aos presidentes da Câmara e do Senado, na primeira quinzena de agosto, com uma exigência: votação já, e aprovação do Estatuto, parado há 11 anos nas gavetas do Congresso, e do PL 73/99, respectivamente do senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, e da deputada Nice Lobão, do Democratas do Maranhão.
“O Movimento Social Negro não pode condunfir Governo com o Estado e precisa sair dessa anestesia. Estamos presenciando um fato histórico no Brasil”, disse, empolgado o professor Hélio Santos.
Aberto pouco depois das 19h pelo Frei Antonio Leandro da Silva, novo diretor executivo da Rede Educafro, o ato teve a presença dos deputados Carlos Santana, do Rio, e Janete Pietá, de São Paulo, respectivamente presidente e secretária executiva da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial da Câmara Federal. “Esse é o caminho para avançar nessa luta. O Brasil só será democrático com igualdade racial”, afirmou Santana que, pouco antes, em reunião com as lideranças do movimento, garantiu que ampliará a mobilização para a coleta de assinaturas por todo o país, a começar pelo Rio de Janeiro, seu Estado. Ele sugeriu que a reunião convocada em São Paulo para o dia 16 de julho se transforme numa reunião nacional, com o convite à lideranças de outros Estados comprometidas com a mobilização. O senador Paulo Paim, com agenda no seu Estado, não veio, mas mandou uma saudação aos organizadores.
Entusiasmo e moblização
Um dos momentos de maior empolgação foi quando Frei Leandro avisou aos presentes da aprovação das cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ocorrida também nesta sexta-feira (29/06). “Vencemos mais esta batalha”, afirmou, sob aplausos dos presentes. O auditório também aplaudiu muito quando João Bosco Coelho, do Movimento Brasil Afirmativo, pediu a mobilização de todos na coleta e apresentou cinco mil assinaturas coletadas só este ano por ativistas do Movimento, responsável pelo início da mobilização em julho do ano passado.
A deputada Janete Pietá, que é também coordenadora do Núcleo de Parlamentares Negros do PT (Nupan), ressaltou. “É importante que vocês saibam da importância dessa mobilização para enfrentar um Congresso branco, conservador e racista. Não será fácil”, preveniu.
Os deputados José Cândido, do PT, e Carlos Gianazzi, do PSOL, ambos de S. Paulo, se comprometeram a colocar seus gabinetes na Assembléia à disposição do movimento de coleta de assinaturas e defenderam a aprovação imediata do Estatuto. Também a vereadora Claudete Alves, única vereadora negra na Capital, esteve no ato e disse que mobilizará sua base para a coleta de assinaturas.
Cleonice Caetano Souza, do Sindicato dos Comerciários, representando o presidente Ricardo Patah, que deverá assumir a presidência da nova central sindical – a União Geral dos Trabalhadores (UGT), disse que dezenas de listas foram encaminhadas a todos os sindicatos da base para a coleta. O professor Eduardo de Oliveira, do Congresso Nacional Afro-Brasileira (CNAB), conclamou os presentes a saírem às ruas para coletar assinaturas.
Omissão
Curiosamente, lideranças da Conen, da Unegro e do MNU, ignoraram a manifestação.O representante do Instituto do Negro Padre Batista, advogado Sinvaldo Firmo, foi duro. “Essa é a hora de muita gente descer de cima do muro. Chega de hipocrisia”, afirmou, cobrando posição dos que dizem defender o Estatuto e o PL das Cotas, porém, não se propõe à mobilização suas bases para pressionar o Congresso.
No encerramento do ato, Douglas Belchior e Thiago Thobias leram o manifesto à sociedade brasileira, elaborado pelas entidades. “Convocamos toda a sociedade a encampar o desafio de coleta 100 mil assinaturas dirigidas ao Congresso Nacional (…) Conclamamos a toda a sociedade brasileira a abraçar a causa da justiça e do combate ao racismo, profundo câncer instalado desde os primórdios da construção da Nação brasileira. Juntos/as, nas trincheiras do campo e da cidade, nas aldeias e nos quilombos, ergueremos as bandeiras da justiça”, conclui o Manifesto.
O ato foi encerrado com uma celebração dirigida Frei Leandro, e mais os pastores evangélicos Marcos Davi, Daniela Zeidan e de Adegboyega Najeem Hammed, do Centro Cultural Àdimúlà, representando as religiões de matriz africana. Todos de mãos dadas, inclusive o auditório, rezaram o Pai nosso, enquanto as listas para a coleta de assinaturas eram distribuídas aos presentes.
Nesta segunda-feira, às 19h, na Educafro, haverá encontros de adesão às entidades e pessoas que quiserem levar listas para passar nos bairros, sindicatos e associações. No dia 16 de julho, uma reunião geral está convocada para contabilizar as assinaturas e fazer um balanço; e no dia 06 de agosto, haverá a contabilidade final, e discussão da viagem à Brasília para a entrega ao Congresso.

Da Redacao