Casoy e Antoine expressaram o pensamento de boa parte da elite patrimonialista brasileira, que se mantém profundamente preconceituosa e racista contra os que não tem sua origem social, nem o mesmo pertencimento étnico.
É esse horror fortemente enraizado nas instituições brasileiras – inclusive nas instituições do Estado e não apenas nas privadas – que explica o abismo de desigualdade social com que o país pretende, paradoxalmente, se transformar na quinta economia do mundo nos próximos anos.
É o pensamento padrão de Casoy e do destrambelhado cônsul do Haiti, que vem se reproduzindo ao longo dos séculos e que explica o racismo institucional praticado por empresas e pelo Estado, responsável pela naturalização das diferenças de natureza étnico-racial.
Quando apanhadas em flagrante essas tristes figuras esboçam desculpas tão fajutas quanto constrangidas e que seriam dignas de pena, não soubéssemos todos que não há inocência nos gestos, mas pura esperteza e instinto de sobrevivência.
Senão vejamos:
1 – o que pode explicar que um dos jornalistas mais bem informados e prestigiados do país, que se notabilizou por uma espécie de udenismo fora do tempo e de lugar, sempre pronto a fulminar com o bordão “isso é uma vergonha!” os escândalos do mundo da política, a desancar humildes trabalhadores lixeiros que apenas, saudavam os seus telespectadores pelo Ano Novo?
Alguém dirá que foi descuido, que o mesmo não sabia que os microfones ainda estavam ligados, que Casoy pediu desculpas de pronto, etc, etc, etc. A pergunta é: em que, e o que isso muda?
A verdade é que Casoy expressou o que, de fato, pensa; o desprezo, o pouco caso com trabalhadores responsáveis pela limpeza da sujeira da cidade, inclusive da sua própria. Houve um tempo em que a pobreza no Brasil ainda era portadora de uma certa dignidade, as pessoas se orgulhavam até de afirmarem a condição de pobres, porém honestas. Esse tempo, desafortunadamente, porém, faz parte de um passado distante, soterrado pela tendência à banalizaçao de valores e a superficialidade nessa era triste dos “big brothers”.
2 – o que pode levar a segunda principal autoridade diplomática de um país, devastado pelo que a ONU considerou a maior tragédia de toda a sua história, e sob o impacto da morte de 100 a 200 mil pessoas – segundo as estimativas mais confiáveis dos organismos de ajuda humanitária – a dizer, com todas as letras, que “a desgraça de lá está sendo uma boa prá gente aqui, ficar conhecido” e que “o africano em si tem maldição, acho que de tanto mexer com macumba” e que “todo lugar que tem africano lá tá f… (fodido), fazendo coro à perseguição contra as religiões de matriz africana e apologia à intolerância religiosa.
O que mais pode explicar uma atitude, digna do desprezo de qualquer pessoa que não tenha perdido completamente a sensibilidade e a capacidade de indignação humanas, senão o conceito – e não apenas o preconceito – profundamente arraigado no coração e na mente desse pobre diabo, que seria digno de pena e piedade, se também não soubéssemos que não há inocência no seu gesto e atitudes?
O mais patético foi o argumento com que o não menos patético cônsul – tal qual o âncora da Band – pretendeu desculpar-se, alegando que se atrapalhava com o português idioma que ainda não domina, apesar de estar no Brasil há 35 anos.
Na entrevista, o desastrado cônsul, que é, nada mais nada menos do que o Presidente da Associação dos Cônsules do Brasil, recorreu ao velho recurso tão bem conhecido nosso: o de que, imagine, como poderia ser racista se um dos seus avós, que já foi, inclusive, Presidente da República do seu país, era negro? Africano, acrescentou.
Acaso não é esta a desculpa preferida de onze em cada dez racistas brasileiros quando apanhados? A de que: “imagine, como posso ser acusado de semelhante crime se tenho um tio, um sobrinho, o amigo mais querido, a namorada, a mãe da noiva, negras?”
Para além da patetice tosca, do preconceito escancarado de Casoy contra pobres – sejam ou não negros, índios e ou japoneses – e de Antoine contra negros, em especial – sejam pobres ou não – chama a atenção a débil – para não dizer, quase nenhuma – reação de lideranças negras e anti-racistas brasileiras diante das aberrações praticadas por ambos à luz do dia e a céu aberto transmitidas para milhões de pessoas no Brasil.
A pergunta que não quer calar é: quando vamos continuar admitindo que autoridades que ocupam importantes postos diplomáticos – não importa de que país sejam -, como Antoine, e formadores de opinião como Casoy, usem concessões públicas como o rádio e a tv para promover o desprezo, o escárnio e a humilhação da maioria da população brasileira, que é pobre e negra?