É a segunda vez que Joel Zito participa do Festival de Filmes brasileiros, conhecido como Premiére Brazil, que acontece no Museu de Arte de Nova York (MoMA). Há quatro anos, ele este lá com o Filhas do Vento.
O Cinderelas, segundo relata o correspondente de Afropress, em Nova York, Edson Cadette, foi apresentado numa sessão com casa cheia e a presença do diretor, no dia 19 de julho, e foi bastante aplaudido ao final pela platéia.
No filme, um documentário investigativo, o diretor viaja do nordeste brasileiro até a cidade de Berlim tentanto explicar a idéia de sexo, raça e o poder de sonho de jovens cinderelas do Sul e os Lobos do Norte. O documentario toca ainda num assunto extremamente delicado no pais, ou seja, a pedofilia.
Na entrevista à Afropress, realizada durante a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o diretor denuncia a reação articulada de setores conservadores da sociedade contra as conquistas da população negra – como as cotas e o Estatuto – e chama a atenção das lideranças para que não se percam no fogo amigo.
“Eu acho que esse é um momento muito especial. Nós temos que ter a cautela para não se perder no fogo amigo, porque a reação é muito grande, a reação é muito articulada. Não é um momento em que um setor ou outro reage contra agente, não. É uma coisa orquestrada, com líderes muito evidentes, com jornalistas e articulistas que trabalham ganhando dinheiro para fazer isso”, alertou.
Veja, na íntegra, a entrevista do cineasta Joel Zito Araújo.
Afropress – Joel você acaba de lançar mais um filme, Cinderelas, Lobos e o príncipe encantado. De que trata o filme?
Joel Zito Araújo – Olha, é um filme sobre o mundo do turismo sexual. E como sou um autor conhecido por abordar a temática racial, todo mundo me pergunta como é que você chegou a esse tema, porque você se interessou por turismo sexual.
Eu me interessei por uma coisa muito simples. No momento em que uma pessoa da Unicef me contou que 2/3 das mulheres e das crianças que são objeto do desejo dos gringos que vem prá cá fazer turismo sexual são pessoas negras, são afrodescendentes.
Eu falei, bem, essa história aí tem jogo, tenho que examinar. Eu de fato fui a campo e constatei isso. Constatei que você tem aí, eu diria, um imaginário internacional que o filme revela, que foi produzido pelo Governo federal, de certa forma pela cultura brasileira, foi construído pela EMBRATUR nos anos 70, pelos romances do Jorge Amado, pelas telenovelas no exterior que levaram a fazer do Brasil um dos paraísos do turismo sexual no mundo hoje, um grande fenômeno.
Bem, o problema disso, eu acho que não existe nenhum problema de um homem adulto com uma mulher adulta se relacionar sexualmente numa viagem de turismos. Não vejo nenhum problema nisso.
O primeiro grande problema é que uma parte do turismo sexual tem uma indústria mafiosa por trás, que organiza os pacotes de viagem, que vendem essas mulheres e que traficam essas mulheres. Então você tem a dimensão do tráfico de seres humanos que é a terceira indústria criminosa do momento do mundo, que envolve milhões de dólares.
Um segundo elemento muito perverso que também abordo no filme é a exploração de crianças e adolescentes. Óbvio, que o Brasil não é o paraíso dos pedófilos, mas uma parte desses gringos vem prá cá e abusam das nossas crianças.
E uma terceira dimensão – e nesse sentido esse filme me trás uma coisa nova – o fato dessas mulheres serem na sua maioria negras, me deu a condição de me aproximar da mulher negra pobre. Então, é um filme em defesa dessas mulheres, porque essas mulheres são vítimas do preconceito, da discriminação da cidade que elas vivem. Então, ninguém quer considerar que o atrai nessas mulheres, que existe um sonho de cinderelas nelas porque elas são pobres, porque elas vivem num mundo de baixa estima e num mundo em que a possibilidade de ascenção social é muito diminuta.
Então esse é outro elemento que está no filme que é de mostrar o imaginário que leva essas mulheres a entrar no turismo sexual; eu acompanho essas mulheres lá fora, eu termino o filme em Roma e em Berlim, procurando saber o que aconteceu com aquelas que se envolveram com isso. Quem conseguiu casar e encontrar o seu príncipe encantado; quem se deu mal no tráfico de seres humanos, quem acabou indo par a Europa e acabou na prostituição. É um filme investigativo, e um documentário investigativo.
Eu lancei em cinco capitais (Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Salvador – está na quinta semana – Fortaleza) e agora em agosto estou lançando em mais oito capitais, entre elas S. Paulo e Rio.
Afropress – Quais os temas que você considera que são prioridade nesse momento na agenda do Movimento Negro brasileiro?
Joel Zito – Primeiro, eu acho que agente tem de discutir a conjuntura do Brasil na discussão racial. Eu acho que é uma conjuntura contraditória. Contraditória porque por ação do Movimento Negro nós conseguimos fazer com que o país discutisse a sua realidade racial. Nós conseguimos derrubar o mito da democracia racial. Nós somos de uma geração que quando agente na Universidade começou a fazer essa discussão agente reunia com a agente mesmo. Grupo de 10, 12 pessoas numa sala para debater. Hoje é um debate nacional. Então é fruto da vitória do Movimento Negro.
Mas, tem uma particularidade nesse momento que agente está vivendo, que é de uma reação muito grande, uma reação orquestrada, uma reação articulada de um setor conservador, um setor político que você pode identificar muito claramente quase uma certa coesão partidária, como o PSDB em S. Paulo, o DEM nacionalmente. Reações que encontram respaldo em partidos que tradicionalmente apóiam a causa negra, as demandas do Movimento Negro, da população negra. Então quer dizer que não é só uma coisa localizada.
Agente vive um momento de reação, uma reação orquestrada por grandes órgãos de mídia, uma reação que passa pelo Congresso, pela tentativa de derrubar as conquistas dos quilombolas, pela tentativa de derrubar o Estatuto, enfim, nós vivemos um momento de confronto muito grande em que esse setor está extremamente articulado e ganhando segmentos da classe média. É um discurso voltado para a classe média, para arrebanhar a classe média, e para segregar os setores de alta renda da classe média, em relação a essa ascenção de conquistas e transformações de consciencias do Movimento Negro.
E a partir desse momento de conjuntura que essa Conferência é muito importante. O que vai sair daqui de resoluções, de acordos internos dentro das correntes do movimento negro. Eu não estou ligado a nenhuma corrente do movimento negro, eu sou uma pessoa autônoma, nunca quis me ligar porque sou artista, eu quero ter autonomia a liberdade de artista.
Então eu acho que esse é um momento muito especial. Nós temos que ter a cautela para não se perder no fogo amigo, porque a reação é muito grande, a reação é muito articulada. Não é um momento em que um setor ou outro reage contra agente, não. É uma coisa orquestrada, com líderes muito evidentes, com jornalistas e articulistas que trabalham ganhando dinheiro para fazer isso.
A minha expectativa é que as correntes políticas, que as lideranças que tem esse papel de articulação, tenham consciência disso.