Em uma primeira definição, Clube Social Negro é um espaço associativo do grupo étnico afro-brasileiro, originário da necessidade de convívio social do grupo, voluntariamente constituído e com caráter beneficente, recreativo e cultural, desenvolvendo atividades num espaço físico próprio.

Este conceito foi elaborado a partir de uma política de mapeamento dos Clubes Sociais Negros, iniciada em Santa Maria/RS, no ano de 2006, quando aconteceu o 1º Encontro Nacional de Clubes e Sociedades Negras.

Segundo relatos feitos pelo nosso saudoso e falecido poeta e escritor, Oliveira Silveira (in memória), era comum o Clube Social Negro denominar-se Sociedade e havia casos em que, pelo seu histórico, ostentava denominação pouco indicativa da pluralidade de suas funções, como é o caso do Centro Cívico Cruz e Souza, de Lages-SC, ou da Associação Négo Foot Ball Club, de Venâncio Aires-RS, clubes plenamente dedicados a atividades beneficentes, recreativas e culturais.

Motivação muito evidente foi a Abolição da Escravatura em 1888, seguida do contexto pós-abolicionista, de onde a frequência de Clubes com o nome Treze de Maio – ou 13 de Maio -, além de Rui Barbosa, Castro Alves, José do Patrocínio. E existem Treze ou 13 de Maio em Piracicaba-SP, Curitiba-PR, Tijucas-SC, Santa Maria-RS, com a variante Flor de Maio em São Carlos-SP.

Outra motivação interessante foi a Lei do Ventre Livre, de 1871. Em Jundiaí-SP, existe o Clube Beneficente Cultural e Recreativo “28 de Setembro” (data da lei). É interessante observar as datas de fundação dos Clubes Sociais Negros, pois elas evidenciam que essa forma associativa corresponde a uma necessidade continuada, presente em diferentes períodos.

Para exemplificar cito três exemplos de entidades que se encontram em plena atividade:

1) Associação Protetora dos Desvalidos

Na terceira década do século dezenove, ano de 1827, um grupo de homens livres, inspirados nos ideais de Solidariedade, Fraternidade e Caridade agremiou-se com o firme propósito de angariar e poupar recursos econômico-financeiros, visando dentre outras providências efetuar a compra de cartas de alforria para negros escravizados. 

Fonte: sociedadeprotetoradosdesvalidos.blogspot.com.br

2) Associação Floresta Aurora de Porto Alegre

Fundado 31/12/1872 por uma escrava chamada Maria Chiquinha, foi criada com o caráter estritamente beneficente, para dar assistência às famílias negras por ocasião da morte de seus membros, que, por falta de recursos, eram enterrados em valas comuns, como indigentes. Com o tempo, incorporou o caráter de sociedade cultural e social.

Fonte: clubessociaisnegros.com.br

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  • 3) Renascença Clube

Fundado em 17 de fevereiro de 1951, por um grupo de negros pertencentes a classe média, devido a discriminações sofridas pelos seus associados em outros clubes e agremiações renomados do Rio de Janeiro, criaram assim, um espaço social próprio onde os seus fundadores e familiares frequentassem um clube cuja principal característica era resistência cultural e a não conformação com o preconceito e discriminação impostos pela sociedade.

O "Rena", como é conhecido por seus frequentadores, teve grande expressão nos concursos de beleza, nas décadas de 50 e 60, onde podemos ressaltar Dirce Machado (1959), Aizita Nascimento (1963), Vera Lúcia Couto dos Santos (Miss Guanabara, 2º lugar no Miss Brasil e 3º lugar no Miss Beleza Internacional, o que lhe rendeu o título de Miss Fotogenia, em1964).

Fonte:facebook.com/Renascença Clube.

Fazendo este breve relato, quero trazer para nossa memória a importância histórica que estes espaços tiveram e ainda tem com nossa comunidade principalmente a comunidade Negra Brasileira.

Os princípios familiares, a herança da cultura Griô,a ancestralidade, a sociabilização, o sistemas de economia solidária sem falar no sistema de Saúde. Tudo isto tem com toda a certeza uma ligação muito forte com os princípios norteadores dos Clubes Negros Brasileiros.

A partir do marco de 2006, após o primeiro Encontro Nacional (veja foto abaixo da então ministra Matilde Ribeiro abrindo o Encontro), muitas foram às ações que se desencadearam para evidenciar a manutenção e a revitalização destes espaços, porém um grupo que foi esquecido por mais de cem anos, necessita de uma ação muito pontual e efetiva para sua consolidação com prioridade dentro do bojo das políticas públicas a serem desenvolvidas pelos entes federativos.

Infelizmente nos defrontamos com o paradigma de causa e origem, quando vemos os espaços centenários dos Clubes Sociais Negro sendo literalmente dizimados de nossa existência, por uma enormidade de motivos, sem sombra de dúvidas, temos a obrigação de olhar para a origem.

Quais os compromissos que não forram assumidos pelos poderes públicos das três esferas de Governo para garantir a existência e a manutenção destes espaços culturais, e quando digo isto, lembro-me dos espaços referências das outras etnias que estão ai, como pontos turísticos, pontos de cultura e como centros de referência por todo o Brasil.

Nosso enraizamento foi e é tão forte, que apesar da ausência dos compromissos pactuados e rompidos com a própria Constituição Federal nos Art. 215, Art. 216 com as 20 demandas aprovadas no eixo trabalho durante a II Conapir e com a seção III – Artigo 17 do Estatuto da Igualdade Racial, nós resistimos.

O que falta é uma iniciativa verdadeiramente comprometida com nossas entidades. O que hoje vemos ocorrer em Porto Alegre com a Sociedade Beneficente Floresta Aurora, no Paraná, com a Sociedade 13 de Maio e com Sociedade Beneficente Treze de Maio, de Piracicaba, nada mais é do que o resultado da falta de compromisso das entidades federativas. E estas são as do momento, pois muitas já fecharam suas portas e não tinham se quer, a quem recorrer. Se perguntem: onde está a Sociedade União Rosariense/RS, entidade ao qual pertencia nosso saudoso Oliveira Silveira? Tentar conduzir esta discussão pela via jurídica é desprezar todo o contexto de importância histórica e institucional destes espaços.

Tenho a mais absoluta convicção de que se estes espaços relatassem a história de qualquer outra etnia que não a dos negros brasileiros, com certeza, medidas preventivas a muito já teriam sido tomadas. Não temos mais tempo para conjecturar e tão pouco para reconstruir a roda, todos sabem as ações que devem ser desenvolvidas para garantir efetivamente a plena utilização destes espaços com todo o conjunto de sua história.

Quando os agentes políticos “nossos representantes eleitos ou indicados por nossos eleitos” querem, eles fazem. E não ficam demandando responsabilidades que são suas para os representantes da sociedade Civil.

É inconcebível, que os representantes da sociedade civil do Movimento Clubista Negro que estão minimamente organizados, nos Estados do RS, SC, PR, SP, RJ, MG, MS, BA, possam se organizar por sua conta e risco. Somos lideranças representantes sociedade civil, voluntários de uma causa maior. Nossas atribuições já são executadas no limite de nossa capacidade, somo cobrados muito para além de nossa possibilidade de resposta.

Temos mais de 120 (cento e vinte) entidades já identificadas no País, que desenvolvem ações diretas ou indiretas com um número aproximado de mais de 1 milhão de pessoas, só contabilizando as capitais e regiões metropolitanas, isto sem ainda ampliarmos a discussão sobre a definição do conceito de Clube Negro. Somos pontos de cultura natos e de origem e, infelizmente, não somos reconhecidos.

No norte e no nordeste, nem ainda iniciamos esta discussão com os interlocutores que desenvolvem as temáticas étnicas raciais, a fim de podermos ampliar nossa área de atuação.

Em 2008, já antevíamos a necessidade de nos salvaguardar, quando em 2009, após ampla discussão entre os representantes de nosso movimento, articulamos junto a então deputada Federal Luciana Genro uma emenda parlamentar da ordem de R$ 500.000,00, cadastrada no Siconv sob o num 059151/2009, que tinha como objeto o Projeto de Memória dos Clubes Socais Negros do Brasil, emenda esta alocada no orçamento da Fundação Cultural Palmares, com uma contra partida já ajustada e disponibilizada pela Prefeitura Municipal de Santa Maria/RS de R$ 42.000.00.

Por motivos de inexperiência e de não nos articularmos politicamente, e de interesses que não nos foram informados, o recurso desta emenda não saiu do papel, perdemos dois anos trabalhando nos articulando em torno desta emenda e nada.

Num segundo momento tivemos a SEPPIR assumindo a responsabilidade para o desenvolvimento da ação através da chamada pública 01/2011 de 05 de Agosto/2011, que teve com vencedora a Universidade Federal do Paraná.

E mais uma vez, depois de dois longos anos de discussões, reuniões e expectativas frustradas, problemas independentes da nossa vontade, “nós que estamos na ponta assistindo sem poder de reação a dizimação de nossos espaços”, o projeto de memória não sai do papel.

Alguns podem se indagar sobre a importância deste projeto de memória, que tem a estratégica finalidade de mapear os clubes existentes dando conhecimento notório de suas atividades e importância histórica, a fim de darmos prosseguimento no projeto de salvaguarda que visa a medida protetiva que é o tombamento (materiall ou imaterial) dependendo do caso.

Conforme processo aberto junto ao Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) sob nº01450.007019/2009-98 referente ao pedido de registro dos Clubes Sociais Negros do Brasil, no livro de registro dos lugares de memória do IPHAN.

Estamos dialogando com a quarta gestão administrativa da SEPPIR e estamos iniciando o diálogo com a terceira gestão na Fundação Cultural Palmares, entendo que o tempo de amadurecimento para a importância da concretude desta ação já se consolidou, o movimento já tem mesmo que, não institucionalmente, mas em sua imaterialidade o reconhecimento do seguimento do movimento negro brasileiro.

Por fim, quero me solidarizar com todos os gestores presidentes e integrantes dos Clubes e Associações Negras do país, que vivem uma realidade muito mais difícil do que aquela que nossos representados imaginam. Demoramos seis longos anos para amadurecermos e escolhermos nossa primeira executiva nacional. Temos consciência de nossas dificuldades e do árduo trabalho que teremos para nossa afirmação, porém, temos que permanecer firmes e atuantes, pois devemos isto a quem nos antecedeu e bater de frente com este sistema que ainda não nos legitima.

Metas (em andamento) da Executiva Nacional do Movimento Clubista para 2013/2014.

Garantir a execução do Projeto de Memória e salvaguarda;

Lançar Projeto Nacional de Identificação dos Espaços dos Clubes Sociais Negros do Brasil;

Lançar a Cartilha Nacional dos Clubes Sociais Negros do Brasil;

Executar o III Encontro de Clubes Sociais Negros no Estado de São Paulo;

Garantir a manutenção do Site dos Clubes Sociais Negros do Brasil.

 

Luis Carlos de Oliveira