Interessante seria se fosse estimulado a criação de mais coletivos, entre outros espaços de construção do conhecimento, em bairros periféricos e centrais, escolas públicas e particulares, faculdades e universidades. Estes espaços (sugestão) poderiam ser organizados dentro de uma dinâmica de grupos de estudo, com grandes áreas de conhecimento (ex. civilizações africanas pré-sistema escravista branco) dirigidas, e subáreas de conhecimento livres (ex. relações entre povos, corporeidade, religião, jogos, culinária, música, etc) dentro da grande área de conhecimento. O estabelecimento destes grupos de estudos provocaria a construção progressiva de um corpo sólido de conhecimentos que pressionariam as instituições de ensino, orientando-as no cumprimento da LDB.
Não sei se os Coletivos Negros teriam sucesso nesta empreitada, mas a idéia me parece coerente. Empiricamente, os NEABs tem contribuído para o aumento das publicações de artigos científicos, livros, e outros documentos sobre o negro, além da organização de congressos, fóruns, encontros e outros eventos, e isso têm um impacto na comunidade acadêmica e na sociedade. Estes trabalhos devem continuar, se intensificar e disseminar cada vez mais.
Nas instituições de ensino, parece estar aumentando os problemas comportamentais, com sérias implicações de risco à saúde aos alunos, professores e funcionários. Por quê isto está acontecendo? Por quê os jovens estão mais agressivos? Por quê as (os) professoras (es) estão mais doentes, mais estressadas (os)? Será que uma escola que possue um trabalho com expressões do Movimento Negro, levando em consideração as experiências de vida dos alunos, têm um quadro mais saudável do comportamento dos alunos? Por exemplo, um trabalho bem estruturado realizado na disciplina de Educação Física, junto com um Coletivo Negro e grupos de capoeira, resgatando a história da capoeira no séc. XIX, e séc. XX mudaria o conceito da criançada sobre uma parte importante da cultura negra. A importância da capoeira no final do império e início da república, a organização das “maltas” de capoeiras, desconstrução da idéia de que os capoeiras eram desocupados, (eram trabalhadores, artesãos, profissionais liberais), relações entre nobreza e capoeiras, e exercíto e capoeiras, traduziriam o conteúdo a ser trabalhado pelo professor de educação física, membros do coletivo negro e grupos de capoeira.
Estamos em um momento onde a Universidade perde hegemonia e credibilidade, as escolas perdem hegemonia na construção do conhecimento, e em contrapartida o Movimento Negro ganha credibilidade e notoriedade nestas instituições. Cresce também a responsabilidade das várias expressões do Movimento Negro, e a possibilidade de resgatar a identidade das nossas crianças.

José Evaristo Silvério Netto